Fidalgos da Província

João de Olivença em “Occidente” 30 de Dezembro de 1900.

RECORDO-ME dos fidalgos da província, e com eles convivi na adolescência, e na minha juventude. Foi ontem, sou lembrado que eram a nota pitoresca, simpática, em a sociedade de há trinta anos. (…)

Ao cair da tarde, quando já esmorecia o Malho, o senhor ladrão, o frade, ainda se ouvia o estalejar de um ou outro foguete de sete respostas, e soar o bombo, batido pela enorme vaqueta de cabeça de trapos, e também a serranilha alegre da gaita de foles, que enchia vales e montes de toadas de encanto inolvidável, que pareciam a própria voz das giestas, das congossas azuis, dos belos e verdes olmeiros e das mais árvores e penhas!

Ás vezes sentia-se grande reboliço. Toda a romagem, como onda que vem alastrando corrida sobre uma praia, desmandava-se a um lado, e era grande a grita; e vozes diziam: fujam; e os ébrios, erguendo-se cambaleantes, respondiam: – Qual fugir, nem qual diabo!

As mulheres, tapando as orelhas com as mãos, davam uivos lastimosos. Mas, por fim de contas, era o fidalgo que varria a feira, como lá se dizia, fazendo sarilho com um grande varapau ferrado, e impávido, ia levando diante de si os valentes, que não entestavam com ele, já pelo respeito que lhe tinham, já pelo receio de ficarem deslombados.

Bons tempos e bons fidalgos!

 

 

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Provas anuais das aulas de Educação Física na Escola Académica 1906

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“No Dia 24 realizaram-se as provas de educação física, compreendendo ginástica, esgrima de pau e de florete e patinagem.

(…) O programa constava dos seguintes números: exercícios elementares de ginástica, marcha em ordinário e acelerada, ginástica sueca, exercícios no ripado, na trave e nos arcos. Jogo de pau, cortesias e assaltos. Esgrima de florete. Patinagem, quadrilhas, corridas e jogo da rosa. (…)

Todos estes exercícios despertaram o maior interesse dos assistentes, pela perfeição com que foram executados, chegando por vezes a serem calorosamente aplaudidos os alunos, muito especialmente no jogo do pau, tão nosso, tão português que entusiasmou verdadeiramente os espetadores.”

“O Ocidente” N.º 991 ( 10 Jul. 1906 )

 

 

Hier ruht ein tapferer portugiese

O reconhecimento da bravura lusa pelo adversário, também se encontra nos relatos alemães desta batalha. Em muitas trincheiras, só se havia distribuído seis balas a cada soldado português (casos houve em que apenas receberam três)! Tal não significava a desistência da luta. Muitos portugueses pegaram nas suas espingardas e usaram-nas como no jogo do pau. Este pormenor, mencionado num relatório alemão, foi reconfirmado pelos guardas do Museu Militar, (…)

Até ás décadas de 50 e 60 do século passado, recrutavam-se os guardas do Museu Militar de Lisboa, entre os veteranos da Grande Guerra. Muitos gostavam de mostrar a peça mais emocionante na sala da “sua” guerra: uma cruz simples, em madeira, retirada de uma das trincheiras da batalha de La Lys. Era a cruz de uma campa de um soldado de nome desconhecido. Mostra a inscrição em alemão: “Hier ruht ein tapferer Portugiese” (AQUI JAZ UM VALENTE PORTUGUÊS).

Por Rainer Daehnhardt, texto completo em: http://www.grifo.com.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=228

Mocidade Portuguesa

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Jornal da Mocidade Portuguesa Nº 33, Ano III.
1 de Abril de 1939. Lisboa.

“Aspectos da instrução do jogo do pau, no respectivo centro de Lisboa. A «Mocidade Portuguesa» promove assim o ressurgimento dum dos nossos mais interessantes e característicos desportos“


O XIII ano da Revolução Nacional, foi comemorado com um grandioso festival da Mocidade Portuguesa, realizado no campo de Jockcy Clube, e com uma parada da Legião. Na festa da Mocidade, a que assistiram os Srs. Presidentes da Repúblico, da  Assembleia Nacional e do Conselho e todo o Governo, uma multidão entusiasmada aclamou delirantemente o desfile de cinco mil aliados daquela patriótico organização.
A festa compreendeu exercícios de ginástica sueca, saltos e uma movimentada exibição
de jôgo de pau.

“Boletim da Junta de Provincia da Estremadura” – 28 de Maio de 1939

 

Crónica Alegre por Xisto Junior

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Humorismo – Crónica alegre por Xisto Junior

Dos meus tempos desportivos

JOGO DE PAU: Como é do conhecimento geral, o jogo do pau é uma esgrima genuinamente nacional, que conta com a proteção do Estado e da Igreja.

O estado alimenta e auxilia aquele jogo, pondo a funcionar o parlamento, onde rara é a sessão em que não há paulitada grossa, como aquelas da sinécura e da lácuna e ainda outras que o “Diário das Câmaras” regista como recordes do jogo do pau. A religião mostra o seu interesse pelo mesmo jogo, mantendo aberta ao culto a igreja dos Paulistas.

As paradas do jogo do pau têm diferentes designações: se a tacada vem de cima para baixo, chama-se pau do ar; se faz nódoas negras, chama-se pau de sabão; se atinge em cheio o adversário, no alto da cabeça, chama-se pau de cabeleira; quando lhe dá no nariz, nas pernas, nos braços e no céu da boca, diz-se que é pau para toda a obra.

Ás vezes acontece que dois sports-men, dos que cultivam este género de esgrima, realizam, em plena rua, assaltos muito brilhantes, servindo-se das bengalas.

Em regra a policia intervém, leva os assaltantes ao curativo e depois para a esquadra. A estes assaltos à bengala costumam os jornais chamar, impropriamente, cenas de pugilato, quando deveriam chamar-lhes de bengalato.

“O Domingo Ilustrado” Nº 148, 13 de Novembro de 1927

 

A memória do jogo do pau de Júlio Alves Marinho (2/3)

Mestre José Quéo

Não esquecendo três grandes jogadores: Serafim Tripa de São Martinho de Silvares, Florêncio Tripa e Albano Ramos do Bairro de São Jorge.

Um domingo quando ia para o treino de futebol, no ano de 1954, por volta das 8:00 da manhã, encontrei quatro homens a jogar ao pau, Mestre Quéo e três irmãos António, José e Custódio, conhecidos por “os Moleiros”.

A partir dessa data, continuei até ao ano 1964.
Durante esse tempo passaram mais de 150, e quando a equipa fazia demonstrações encontrava-se com 20 a 30 jogadores.

Podemos salientar outros grandes jogadores: Joaquim Lopes e seu filho Valdemar, António Lopes, João Lopes, e seu filho Mário, Serafim Tripa e sua filha Maria do Carmo, Florêncio Tripa e António Chambeta.

Mestre José Leite (Quéo) (Fafe) Jogo do pau
Mestre José Leite (Quéo) (Fafe)

No mês de Julho de 1966, quando me encontrava em férias em Fafe, convidei o mestre Quéo e a sua esposa para almoçar em casa dos meus pais. Durante esse almoço, falámos dos seus familiares. Ele contou-me com uma grande alegria e emoção que tinha aprendido a jogar com o pai, que o pai tinha aprendido com o avô, e o avô do seu pai que o aprendeu de um senhor que se chamava Marques Mendes dos lados de Freitas, onde havia um grupo e eles faziam partidas. Ainda existe familiares. Foi pena que depois do Mestre José Quéo não houve um filho para continuar, assim terminou como podemos dizer uma existência mais ou menos de 200 anos de jogo do pau entre família.

– Júlio Alves Marinho – ASS CUL PORTUGAISE 25/01/2001

A memória do jogo do pau de Júlio Alves Marinho (1/3)

Então chegamos a uma pessoa única e raríssima, e para meu conhecimento o homem mais grande (1,93m) e mais valente da freguesia de São Bartolomeu do Rego, no dia 21 de Agosto de 1953 por volta das 16:00 e antes de sair a procissão da nossa Senhora da Saúde, seu pai dirigiu-se para comprar uma vara de marmeleiro a um negociante de Borba da montanha. O Comprador disse ao negociante para lhe tirar meio tostão ao preço da vara, replica o vendedor como se o conhecia “parolo”. O filho estava ao lado do pai e disse ao vendedor: “você fale com mais respeito ao mesmo velho, pois se não, vai ser o diabo”. O negociante pegou numa vara e desafiou o rapaz, aí começaram a pancada. O rapaz combateu sozinho contra os homens que quiserem deita-lo ao chão. O barulho durou mais ou menos uma hora. Foi preciso a guarda a cavalo intervir para que o barulho acabasse. Metem-lo-no entre dois cavalos e disseram-lhe para ele parar. O rapaz respondeu-lhes: “paro mas os senhores não me batem pois senão fujo-lhes ao respeito”. A guarda acompanhou o pai e o filho até a saída da romaria e eles foram embora.

No mesmo ano, no dia 8 de Setembro, na Senhora do Viso o dito negociante, de Barba da Montanha voltou para vingar-se, mas ai, ele veio acompanhado dos seus amigos.

O meu pai conversava com o compadre encostado a um penedo a alguns metros, o Joaquim viu varas no ar e cântaros cheios de vinho à cabeça. Ele disse ao meu pai “deixa-me ir ver, que os de Borba querem brincadeira”, deu dois saltos, duas arrebitadelas ao chapéu, e as varas falaram com o mesmo sistema de jogo, entrou com jogo de varre quelhas contra jogo e as pancadas mortais. O pau não se via, só se via pessoas com a cabeça a deitar sangue, homens e mulheres deitados no chão. No fim o Joaquim Gonçalves disse: “Já não há mais?” O combate durou mais ou menos três quartos de hora e assim a festa terminou.

Estas duas cenas passaram-se na minha presença.

– Júlio Alves Marinho – ASS CUL PORTUGAISE 25/01/2001