Competição de jogo do pau em evento de esgrima histórica

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Competição de jogo do pau em evento de esgrima histórica, em Novembro.
Segundo as regras aqui descritas.

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Crónica Alegre por Xisto Junior

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Humorismo – Crónica alegre por Xisto Junior

Dos meus tempos desportivos

JOGO DE PAU: Como é do conhecimento geral, o jogo do pau é uma esgrima genuinamente nacional, que conta com a proteção do Estado e da Igreja.

O estado alimenta e auxilia aquele jogo, pondo a funcionar o parlamento, onde rara é a sessão em que não há paulitada grossa, como aquelas da sinécura e da lácuna e ainda outras que o “Diário das Câmaras” regista como recordes do jogo do pau. A religião mostra o seu interesse pelo mesmo jogo, mantendo aberta ao culto a igreja dos Paulistas.

As paradas do jogo do pau têm diferentes designações: se a tacada vem de cima para baixo, chama-se pau do ar; se faz nódoas negras, chama-se pau de sabão; se atinge em cheio o adversário, no alto da cabeça, chama-se pau de cabeleira; quando lhe dá no nariz, nas pernas, nos braços e no céu da boca, diz-se que é pau para toda a obra.

Ás vezes acontece que dois sports-men, dos que cultivam este género de esgrima, realizam, em plena rua, assaltos muito brilhantes, servindo-se das bengalas.

Em regra a policia intervém, leva os assaltantes ao curativo e depois para a esquadra. A estes assaltos à bengala costumam os jornais chamar, impropriamente, cenas de pugilato, quando deveriam chamar-lhes de bengalato.

“O Domingo Ilustrado” Nº 148, 13 de Novembro de 1927

 

A memória do jogo do pau de Júlio Alves Marinho (2/3)

Mestre José Quéo

Não esquecendo três grandes jogadores: Serafim Tripa de São Martinho de Silvares, Florêncio Tripa e Albano Ramos do Bairro de São Jorge.

Um domingo quando ia para o treino de futebol, no ano de 1954, por volta das 8:00 da manhã, encontrei quatro homens a jogar ao pau, Mestre Quéo e três irmãos António, José e Custódio, conhecidos por “os Moleiros”.

A partir dessa data, continuei até ao ano 1964.
Durante esse tempo passaram mais de 150, e quando a equipa fazia demonstrações encontrava-se com 20 a 30 jogadores.

Podemos salientar outros grandes jogadores: Joaquim Lopes e seu filho Valdemar, António Lopes, João Lopes, e seu filho Mário, Serafim Tripa e sua filha Maria do Carmo, Florêncio Tripa e António Chambeta.

Mestre José Leite (Quéo) (Fafe) Jogo do pau
Mestre José Leite (Quéo) (Fafe)

No mês de Julho de 1966, quando me encontrava em férias em Fafe, convidei o mestre Quéo e a sua esposa para almoçar em casa dos meus pais. Durante esse almoço, falámos dos seus familiares. Ele contou-me com uma grande alegria e emoção que tinha aprendido a jogar com o pai, que o pai tinha aprendido com o avô, e o avô do seu pai que o aprendeu de um senhor que se chamava Marques Mendes dos lados de Freitas, onde havia um grupo e eles faziam partidas. Ainda existe familiares. Foi pena que depois do Mestre José Quéo não houve um filho para continuar, assim terminou como podemos dizer uma existência mais ou menos de 200 anos de jogo do pau entre família.

– Júlio Alves Marinho – ASS CUL PORTUGAISE 25/01/2001

A memória do jogo do pau de Júlio Alves Marinho (1/3)

Então chegamos a uma pessoa única e raríssima, e para meu conhecimento o homem mais grande (1,93m) e mais valente da freguesia de São Bartolomeu do Rego, no dia 21 de Agosto de 1953 por volta das 16:00 e antes de sair a procissão da nossa Senhora da Saúde, seu pai dirigiu-se para comprar uma vara de marmeleiro a um negociante de Borba da montanha. O Comprador disse ao negociante para lhe tirar meio tostão ao preço da vara, replica o vendedor como se o conhecia “parolo”. O filho estava ao lado do pai e disse ao vendedor: “você fale com mais respeito ao mesmo velho, pois se não, vai ser o diabo”. O negociante pegou numa vara e desafiou o rapaz, aí começaram a pancada. O rapaz combateu sozinho contra os homens que quiserem deita-lo ao chão. O barulho durou mais ou menos uma hora. Foi preciso a guarda a cavalo intervir para que o barulho acabasse. Metem-lo-no entre dois cavalos e disseram-lhe para ele parar. O rapaz respondeu-lhes: “paro mas os senhores não me batem pois senão fujo-lhes ao respeito”. A guarda acompanhou o pai e o filho até a saída da romaria e eles foram embora.

No mesmo ano, no dia 8 de Setembro, na Senhora do Viso o dito negociante, de Barba da Montanha voltou para vingar-se, mas ai, ele veio acompanhado dos seus amigos.

O meu pai conversava com o compadre encostado a um penedo a alguns metros, o Joaquim viu varas no ar e cântaros cheios de vinho à cabeça. Ele disse ao meu pai “deixa-me ir ver, que os de Borba querem brincadeira”, deu dois saltos, duas arrebitadelas ao chapéu, e as varas falaram com o mesmo sistema de jogo, entrou com jogo de varre quelhas contra jogo e as pancadas mortais. O pau não se via, só se via pessoas com a cabeça a deitar sangue, homens e mulheres deitados no chão. No fim o Joaquim Gonçalves disse: “Já não há mais?” O combate durou mais ou menos três quartos de hora e assim a festa terminou.

Estas duas cenas passaram-se na minha presença.

– Júlio Alves Marinho – ASS CUL PORTUGAISE 25/01/2001

“O senhor Ventura” – Miguel Torga

Um dia, porém, uns marinheiros americanos, de passeio, deram cabo daquela felicidade. Entraram, começara, a carregar no Porto, embebedaram-se, e ás tantas insultaram o minhoto. Sem saberem, coitados, que o Pereira, além de ser bom cozinheiro, sabia jogar o pau. Quando o viram surgir de cacete na mão, os do mar, fiados nas leis do boxe e na musculatura yankee, riram-se. Mas o Pereira cerrou-lhes os lábios duma assentada. Salta para o meio deles, malha daqui, torce dali, parecia que estava a varrer a festa de S. Bento da porta Aberta. Em menos de um fósforo tinha a casa limpa.

(…) E, como aparecessem novamente marujos americanos, o alentejano tentou apaziguar os ânimos, não consentindo que o Pereira arredasse pé das caçarolas. Mas os do Tio Sam vinham com ela fisgada. Queriam vingar os camaradas. E tanto disseram, tanto provocaram, que em dado momento o Senhor Ventura perdeu a cabeça e gritou lá para dentro: – Ó Pereira, anda aqui dar uma ajuda! – Caiu o Carmo e a Trindade. Um da direita e o outro da esquerda, ás cacetadas a eles, não deixaram cabeça sem sangue nem garrafa inteira.

“O senhor Ventura”, Miguel Torga, 1943 excerto em “O jogo do Pau em Portugal: processos de mudança”, Rui Simões, 1990.

O mestre José Ribeiro Chula

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Foi com o mestre António Moleiro de Valdéra, um antigo discípulo de Domingos Miguel, que José Ribeiro Chula Júnior recebeu as primeiras lições de jogo do pau.

Tinha então 17 anos, conta hoje 34, é natural da Moita do Ribatejo e, presentemente, joga no Barreiro e em Alhos Vedros.

Durante a sua carreira de mestre e de jogador tem feito uma notável propaganda do jogo do pau, tendo-se exibido no Barreiro, Coina, Azeitão, Setúbal, Grândola, Loulé, Moura, Atalaia, Montijo, Moita, Alhos Vedros e em muitas outras localidades onde o seu jogo tem sido sempre aplaudido.

José Ribeiro, que segue a escola de Lisboa, é um magnifico jogador, e na sessão de jogo do pau que há três anos organizámos no Ateneu Comercial, teve ocasião de pôr à prova todo o seu valor da sua classe, assaltando com os mais categorizados elementos que tomaram parte da aludida sessão!

A sua escola «a pura escola de Lisboa», é de grande eficácia; no ataque serve-se habilmente do pau, manejando-o só com o braço direito, o que é próprio do jogo lisboeta, e as suas pancadas enviesadas são muito perigosas, mesmo para os jogadores mais cautelosos!

As suas passagens, tento para o lado direito como para o esquerdo, são feitas com perfeição, e os seus cortes, claros e precisos, notando-se em especial uma grande rapidez no corte saído!

(…) e as cobertas laterais são executadas com toda a atenção, tendo sempre o máximo cuidado com as mãos!

José Ribeiro Chula tem vários discípulos no Barreiro e os melhores são José Policarpo e Joaquim Cunha, rapazes ainda novos no jogo, mas que, pela sua habilidade, constituem verdadeiras esperanças.

José Ribeiro é pois um belo jogador e um grande propagandista da modalidade a que se dedica, o que prova pelo notável desenvolvimento que, na sua região, tem dado à esgrima portuguesa, ensinando inúmeros rapazes, e tomando parte de várias festas desportivas, em que o jogo do pau faz parte do programa.

Sebastião D. M. Cerveira.

 

António de Sousa e José Pereira do Tanque – Alunos de mestre Calado – 1985

Parte do trabalho de investigação técnico e histórico do jogo do pau liderado pelo mestre Nuno Russo, nos anos 80, com objetivo de encontrar os mestres mais antigos do país, levou na pegada dos mestres Calado, pai e filho que ensinaram em várias regiões desde os inícios do século XX, como mestres ambulantes.
Infelizmente pouco se sabe sobre os mestres Calado, com quem aprenderam etc…, mas sabemos que ensinavam por várias zonas do país e que na altura desta investigação, eram tidos com grande respeito por grande parte dos jogadores de pau e conhecidos como os mestres mais antigos, conhecidos, em várias regiões.

Nas imagens, temos José Pereira do Tanque (José Batoque) e António de Sousa, ambos alunos do mestre Calado (Pai) a executar e ensinar o jogo do pau, como aprenderam com este mestre.

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Ao centro: António de Sousa, à direita: José Pereira do Tanque (José Batoque), Ambos alunos do mestre Calado (Pai) executando o jogo de 2 em frente.
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Executando o primeiro exercício ensinado pelo mestre Calado antes de começar o ensino do jogo do pau propriamente dito (Esquadria em mão)

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Nuno Russo e o senhor João Vieira Antunes à porta do cemitério onde no recinto exterior os mestres Calados davam as aulas de jogo do pau.

Vieira do Minho – Terra de origem dos mestres Calado (Pai e filho) “Os pretos”

Fotos tiradas em setembro de 1985 por Henrique Andrade