Poupe-se, que tem bom pulso!

— Se o alfaiate aparecer, que castigo achas que se lhe deva aplicar?
— Trazes tu a escada celestial? perguntou Jorge Ayres, antes de responder.
— Trago, sim.
— Pois, muito bem, O castigo que lhe quero aplicar é simples; há de subir pela escada…
— Queres enforca-lo? interrompeu Gonçalves Lobo.
— Não.
— Dizes sempre o que tencionas fazer.
— Logo o saberás, respondeu Ayres.

Neste momento ouviram-se passos de quem descia a Couraça; e, quando o vento o consentia, alguns sons como de voz abafada.

— Ai vêm nossos irmãos, disse Jorge Ayres.
— Parece-me que sim, respondeu Gonçalves Lobo.

E, para se certificar, assobiou. Não responderam ao assobio. Os dois estudantes admiraram isso, e a ideia de que não eram os Carquejeiros penetrou em suas mentes.

— Não são eles.
— Assim o parece.

Convém esperar e guardar silencio. E os dois, separando-se, cozeram-se com as paredes do arco, um de cada lado. O tropel de passos aproximava-se.

— Ó Ayres! disse a meia voz Gonçalves Lobo.
— O que é ?
— A que horas prometeu vir o Pescada?
— Ás dez.
— Então são eles. Estão para bater dez horas.
— Não são, não; porque se o foram teriam respondido ao teu assobio.
— Seja o que for. Eles não devem tardar.

Calaram-se. Já se começavam a divisar os sujeitos que vinham.

Caminhavam para a Ponte. Eram quatro: um, no meio de dois que o arrastavam á força, estrebuchava e soltava uns sons abafados e surdos, porque o quarto sujeito de traz dos três, tinha e apertava um lenço que servia de mordaça na boca do preso.

— Anda, maroto; lançaste me ao chafariz da Feira, pois ao rio te lançarei eu!

E o grupo ia passando.

— Ó Lobo, disse em voz baixa Jorge Ayres; que será isto?
— Aos futricas! bradou com voz de stentor Gonçalves Lobo, respondendo assim a Jorge Ayres.
— Já! disse este. E, armados de cajados que traziam, deram sobre os quatro.

O que sustinha a mordaça foi a terra à primeira pancada que lhe atirou à cabeça o estudante Jorge Ayres.

— Coragem! amigos! bradou o preso logo que pôde falar, que outro não era senão José da Silva Coutinho.

Gonçalves Lobo repetia pancadas rijas no sujeito que ouvira falar debaixo do arco, e conhecera ser o alfaiate Peixoto.

À terceira cajadada João Peixoto largou o estudante Silva Coutinho, que se desembaraçou facilmente do outro que o agarrava, dando-lhe um valente murro no estômago ; e, correndo a Gonçalves Lobo, lançou-lhe as mãos ao pau, torceu-lho rapidamente e conseguiu tirar lho, mandando logo à cabeça dele uma pancada forte.

Lobo evitou a pancada na cabeça; mas com uma força bruta havia sido ela despedida! Não deu na cabeça de Lobo, mas batendo-lhe no braço esquerdo impossibilitou-o de qualquer movimento, pela dôr enorme que lhe causou.

João Peixoto teria morto a Gonçalves Lobo se Jorge Ayres não acudisse a aparar as pancadas tremendas do desesperado futrica.

José da Silva Coutinho lutava braço a braço com o outro sujeito que não conhecia, e que por ultimo o largou. E num chuveiro de murros que os dois se davam, ninguém podia ao certo dizer qual deles seria o vencedor.

O sujeito que primeiro fora a terra com a pancada de Jorge Ayres, ou estava morto ou sem sentidos; Gonçalves Lobo, com um braço quebrado, assentara-se gemendo com dores enormes, e Francisco Jorge Ayres batia-se fortemente com o alfaiate João Peixoto, redobrando um e outro perícia e destreza.

Um assobio prolongado se ouviu neste instante.

Ayres sentiu-o, mas não pôde corresponder porque, se se distraísse um segundo, estava desarmado, e quem sabe o que seria?!…

Gonçalves Lobo, apesar das dores agudas que sentia, pôde ainda responder ao assobio.

Jorge folgou quando o ouviu ; e, ou fosse porque estimasse a aproximação de seus irmãos diabólicos, ou porque não quisesse aos olhos deles passar por fraco, ou menos destro no jogo do pau do que um futrica ignorante e bruto, começou a mandar ao alfaiate pancadas mais desconhecidas dele, certeiras e firmes.

João Peixoto foi-as aparando, até que perto de si viu três estudantes armados de varapaus. Então, ou fosse porque se amedrontasse, ou porque não soubesse defender-se já de Francisco Jorge Ayres, deixou sair o pau das mãos, que voou até cair no rio, e entregou-se à descrição, desanimando completamente.

Os estudantes, que chegaram, correram ao futrica, e, te-lo-iam morto, se Jorge Ayres não gritasse:

— Alto! amigos! Poupe-se, que tem bom pulso!

///

“O Rancho da Carqueja” tentativa de romance histórico, baseado nos acontecimentos académicos do seculo dezoito (1864) – António Francisco Barata, 1836-1910

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