Pela ruralidade – Varrer a feira

Podíamos recuar mais no tempo mas vamos falar dos anos cinquenta/sessenta pois são aqueles que foram sentidos pelo, à altura petiz, agora humilde redactor deste arrazoado com a madureza que o tempo inexoravelmente emblema. Assim sendo poder-se-á logo à leitura do título deste escrito levantar nos eventuais leitores uma dúvida que vamos descodificar.

No meio rural naquela data sobretudo antes do aparecimento da televisão em 1957 nada acontecia. Eram então as romarias anuais e as feiras, locais onde as pessoas acorriam. Ir à feira de Nespereira era uma mais-valia que todo o agricultor ou simples cabaneiro das redondezas não desperdiçava. Eram feiras onde o gado vacum arouquês tinha forte presença conduzido por moços boieiros um à frente e outro atrás da manada. Como mera nota já por aqui falei da condução do gado comprado por negociantes na feira do Marco de Canavezes que ia directamente a calcantes para o matadouro da Corujeira no Porto. Dito assim para os mais novos isto não passa duma ironia, mas ainda há testemunhos vivos do que acabo de dizer.

Mas voltando ao título “varrer a feira”. Hélas, qual medida higiénica qual quê, as vassouras eram de giesta e convenhamos que varrer a bosta do recinto após a feira não seria muito viável. (Mudando a agulha, na cidade do Porto naquela data as ruas eram varridas e também lavadas coisa que na actualidade não me parece.) Mas vamos então “varrer a feira”. Todo o feirante que se prezava ia à feira com um “marmeleiro” que tinha a dupla função, tanger o gado ou como arma de defesa ou ataque conforme as circunstâncias. E nas feiras as sarrafuscas aconteciam frequentemente, quando a coisa aquecia, havia, não diria profissionais, mas gente que gostava das confusões, pronta a desancar. Alguns eram referenciados e orgulhavam-se na venda lá da terra, com a caneca avantajada de quartilho e meio, à mão de semear, dum branco surrado, com prótese na asa e com dois gatos na rachadela, a esbordar de tintol, de varrer a feira duma ponta à outra. E a verdade é que eram temidos e vistos como musculados, olhados com respeitinho!

Passados estes anos as feiras já não apresentam estas características. O gado quase desapareceu do mapa e as pessoas já estão mais civilizadas deixando-se da “varredura” das feiras. 

Em contra-ponto de épocas podemos dizer que agora há outras varreduras pelo reino, leia-se sacaduras(sacanices se preferirem) ou limpezas a começar ao mais alto nível vindo por aí abaixo até ao simples esticão na rua da carteira da senhora idosa, tudo na mira do pilim, e roubos com violência são o dia a dia mas o ministro da justiça deve dizer que está tudo sob controle, a lei está a ser cumprida!…. O povo é sereno irá votar na maior e se abstenção for elevada tanto dá os deputados serão eleitos à mesma!… Mas já estou a descambar pois do que quis falar foi mesmo das “arruadas” de antanho na feira de Nespereira.

Fiquem bem, antonio
Sábado, 19 de Setembro de 2009 

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