Lenda dos quatro irmãos

Num lugar muito agradável e pitoresco , Minho , nas faldas da Serra da Falperra, antiga estrada Real que ligava Guimarães a Braga . Deu-se o nome de (quatro Irmãos) a quatro penedos que parecem tampas de sepulturas, segundo a tradição , quatro irmãos destes sitios,filhos de Maria do Canto,amavam uma formosa menina, sobrinha do Abade da Freguesia. Ardendo em amor e ciume,os quatro irmãos reptaram-se para neste lugar decidirem á paulada ,quem havia de casar com a rapariga . Tres ficaram logo mortos no campo, e o quarto, que ainda viveu algumas horas é que contou tudo ao Abade,que os mandou enterrar no sitio da contenda,que se ficou a denominar os quatro irmãos até aos dias de hoje.

A lenda:
Eram quatro irmãos.(1) Fortes e belos. E amigos. Como não se conheciam outros. Quatro irmãos, órfãos de pai e mãe. Mas tão unidos que serviam de exemplo. Exemplo de lealdade e de compreensão.

Pois os quatro irmãos viviam ali, na freguesia de Sande, (2) no cenário paradisíaco do Minho, e andavam sempre juntos. Um dia, o mais velho disse para os outros três:
– Rapazes! Vamos hoje à Feira Grande.(3) Já tenho o carro aparelhado. Voltou – se para o mais novo.
– Tu, arranja o farnel!… Leva bastante comida, Hem! Vamos lá passar todo o dia e talvez mesmo um bocado da noite.
Depois dirigiu-se aos outros dois:
– E vocês preparem mantas para o regresso. Podemos voltar tarde e é capaz de arrefecer. Temos de ter cautela com a saúde!
Não tardaram a ser cumpridas as ordens do irmãos mais velho. Este esfregou as mãos, jubilosamente.
– Assim, até apetece.Quando nós, os quatro irmãos, nos metemos ao trabalho, tudo se faz numa instante!
Riram todos. Quatro gargalhadas frescas e sadias.
Apontando o carro já preparado para a viagem, o irmão mais velho acentuou: – Vai ser um dia bem passado, lá isso vai!… Ou muito me engano, ou a Feira Grande este ano subirá de fama nas redondezas!
Os outros três corroboraram logo:
– Claro! Nós somo bem conhecidos e já nos esperam com toda a certeza! – Seremos mais uma vez a grande atracção da feira, vocês vão ver! – Quem é que pode resistir a boa amizade de nós quatro?…
E os quatro irmãos tomaram os seus lugares no carro e abalaram de corrida para a Feira Grande.
Tudo se passou tal como eles pensavam. A certa altura, tinham-se transformado nos heróis da Ferira Grande. Quatro heróis. Sempre juntos, sempre amigos!
Porém, a multidão foi crescendo, aumentando, e acabou por separá-los, mau grado deles.
O mais novo dos quatro irmãos viu-se de súbito diante duma jovem de extraordinária formosura. Pareceu um pouco aturdido. Não se sentia bem. Faltava-lhe a companhia dos outros três. E tentou continuar à procura deles. Mas a jovem formosa cortou-lhe a passagem, olhou-o bem de frente e disse sorrindo:
– Escusais de pensar encontrar agora os vossos irmãos.
E acentuando o riso e o olhar:
– Fui eu própria que vos separei.
O mais novo dos quatro reflectiu primeiro com surpresa, depois curiosidade. – Vós, Senhora?… Mas.para quê?…Por que motivo?
Ela inclinou-se para a frente. O seu perfume perturbou-o.
– Não gosto de concorrentes.Até à vossa chegada, era eu a rainha da festa! Foi a vez do jovem sorrir.
– E continuais a ser, sem dúvida alguma.
Depois, talvez arrastado pelo perfume que aspirava, prosseguiu:
– A vossa beleza, Senhora, é superior a tudo quanto nos rodeia!
Ela meneou os seus belos cabelos negros, num ar de graça.
– Obrigada pelo madrigal!…Já vejo que sois poeta!
O rapaz começou a sentir-se mais à vontade.
– Se poesia se pode chamar à verdade, Senhora.Então, sim, sou poeta para cantar a vossa formosura.
Sem querer ( ou talvez não) as mãos dela tocaram as mãos dele.
– Deveras me lisonjeais com tais palavras.Embora ainda tão novo, já sabeis falar muito bem!
O seu olhar tornou-se muito triste.
– Mas sereis eu merecedora de tanta atenção?…
O mais novo dos quatro irmãos empertigou-se. Ganhou figura.
– Digo-vos mais, Senhora. Se vós quisésseis.
– Se eu quisesse?…
– Poderíamos ser felizes!
Calaram-se. Ela, a meditar. Ele, surpreendido com a ousadia das suas próprias palavras. E ainda desta vez foi a jovem bela e estranha a primeira a falar. – Que dirão os vossos irmãos. quando souberem do nosso encontro?
Ele pareceu cair do sonho na realidade. Teve um movimento brusco de enervamento, a traduzir íntima inquietação.
– Tendes razão, senhora. Preciso de falar imediatamente com os meus irmãos. E agora, atrevidamente, foi o rapaz quem segurou as mãos dela, apertando-as nas suas. Com a violência do amor da juventude.
– Senhora, por tudo vos peço que não vos afasteis daqui. Eu voltarei em breve, para ficarmos juntos até à feira acabar!
Multiplicando-se em esforços, o mais novo dos quatro irmãos foi rompendo por entre a multidão, até que finalmente conseguiu encontrar os outros.
Ofegante, correu para eles.
– Irmãos!… Irmãos!… Ainda bem que os encontrei!
O mais velho fitou-o. Curioso e inquieto. Talvez desconfiado.
– Que se passa? Que tens tu?
Então o outro , lentamente, olhou os três, um por um, e disse devagar, silabando bem para que ouvissem melhor.
– Apaixonei-me!
Houve gargalhadas. Mas gargalhadas diferentes. Conforme as reacções de cada um.
– Deves ter bebido, com certeza!
– Apaixonado? Por alguma rapariguita da tua idade?
– Que partida é essa que tu nos queres pregar?
Mas, sem fazer caso, nem da troça, nem do desdém, nem da descrença, o mais novo dos quatro contou o seu maravilhoso encontro com a jovem formosa.
Os comentários choveram imediatamente:
– Se ela é assim, eu também a quero ver!
– Primeiro estou eu, que sou mais velho do que tu!
– Isso não interessa. Quem chegar primeiro é que vence!
– Porque não a trouxeste contigo?
– Foste um parvo! A esta hora já fugiu.
– Eu vou procurá-la!
– Nada disso. Quem vai sou eu!
De repente, o irmão mais velho resolveu impor a sua autoridade. Pela primeira vez na vida dos quatro irmãos.
– Calem-se! Sou eu o mais velho de todos. Portanto sou eu que vou falar com a tal jovem. Depois lhes direi a minha opinião.(4)
Simplesmente, tal como se conta, ele esqueceu-se de perguntar qual o local onde a rapariga ficara. E, assim, teve de percorrer a Feira Grande em várias direcções, sem que a descobrisse.
Já estava prestes a desistir, quando ouviu alguém rir mesmo junto de si. Voltou-se. Era uma rapariga estranhamente bela.
– Não me digais que sois vós o tal irmão mais velho que anda à minha procura.
Ele suspirou. Encontrara-a, finalmente! E confessou:
– Sou eu, sim . E tenho muito prazer em verificar que o meu irmão mais novo falou verdade!
Ela tornou a rir. Um riso cristalino mas esquisito.
– Perdoai, Senhora. Posso saber porque razão estais tão alegre?
Ela envolveu-o num olhar meigo e perturbador. Irónico também.
– Estou a rir. porque já todos passaram por aqui. Os outros vossos três irmãos! – Eles fizeram isso?
– E porque não?
As duas perguntas quase se chocaram. Depois o irmão mais velho tentou esclarecer:
– Não o deviam ter feito.Sabiam que eu tinha vindo precisamente à vossa procura. Para falar primeiro convosco, Senhora!… Eu tenho essas primazia. Sou o mais velho dos quatro!
Os olhos dela semicerraram-se, num olhar felino.
– Pois escutai, então. Eles passaram por aqui. e estão apaixonados por mim! Seria um desafio? Ele assim o entendeu. E não hesitou na resposta:
– Pior para eles!… Só eu, Senhora, tenho direito ao vosso amor!
A surpresa pareceu estampar-se no rosto da rapariga. Surpresa sincera. Surpresa grande.
– Como? Que dizeis?… Tendes o direito ao meu amor? Porquê?
Ele compreendeu que se excedera. Procurou adoçar a explicação:
– Bem vedes, Senhora. Sou o mais velho dos quatro. O mais experiente. O que mais vos pode oferecer. Os outros dependem de mim.
Entendeis-me, não é assim’ Como mais velho, devo ter sempre a prioridade! Ela pareceu não se conformar.
– Enganais-vos. Em amor, não há prioridade. Só eu posso decidir. Ouvis bem? Só eu quero decidir!
O homem achou melhor não prolongar a discussão. E limitou-se a perguntar: – Se assim é. que decidis?
Altiva, mais bela do que nunca, a estranha desconhecida ditou então ao vento a sua resposta, como se o vento levasse as palavras para a eternidade: – Quereis saber o que eu disse aos vossos três irmãos?… Escutai, pois: Casarei com aquele que entre vós for o mais valente e o mais forte!
Agora foi ele a rir. Um riso de triunfo.
– Mas, Senhora, eu sou tudo isso!
E logo ela, num ar gaiato e provocante, inquiriu:
– Como o provais?…
Diante da falta de resposta, continuou:
– Cada um dos vossos três irmãos afirmou também que era o mais forte e o mais valente!
– Mas eu sou o mais velho, Senhora!
Ela encolheu os ombros, espicaçando-lhe o brio.
– Isso nada prova!
O homem agarrou-a pelos ombros, num decisão súbita.
– Que desejais?
E a rapariga, libertando-se sem grande esforço, acentuou pausadamente:
– Já que me quereis. é preciso que os quatro lutem entre si, até que um fique vencedor dos outros três. Esse será o mais valente e o mais forte. E esse será também o que me conquistará !
O mais velho dos quatro baixou a cabeça. Parecia vergado por um peso enorme. Talvez o peso da própria consciência.
– Senhora, o que pedis é realmente terrível!… Assim se destruirá para sempre a amizade dos quatro irmãos. Uma amizade que vale como exemplo, Senhora! A resposta dela foi cruel, mas excitante:
– Eu só poderei pertencer a um de vós.e não aos quatro! Não pensais assim? O homem hesitou ainda, antes de falar. Por fim, as palavras saíram em voz soturna:
– Pois será satisfeito o vosso desejo, senhora. Vou à procura dos meus irmãos!
Mas logo a jovem formosa, intencionalmente aproximou-se dele e apontou para bem perto.
– Não vos canseis. Eles já estão à vossa espera, lá em baixo. Foi um encontro brutal. Os quatro irmãos (antigamente tão amigos e unidos, como outros não havia) olhavam-se agora cheios de rancor.
Pela primeira vez nascera o ódio entre eles. Um teria de matar os outros, para mostrar que era o mais forte e o mais valente. E conquistar aquela mulher estranhamente bela, que os olhava lá de cima, como que envolta numa auréola de luz. De luz ou de fogo?…
A luta começou. (5) Luta de vida ou de morte. De qualquer modo, luta de tragédia, entre quatro irmãos que até bem pouco antes eram exemplo de compreensão e lealdade!
O mais velho foi afinal o primeiro a sucumbir. Depois outro. E logo outro. Por prodígio, aquele que conseguira resistir até ao fim era o mais novo. Mas também pouco lhe restava de vida. Ele bem o compreendeu, ao olhar os corpos dos irmãos caídos por terra.
E então, sem voltar a olhar sequer lá para o cimo, onde estava a mulher desejada, começou a arrastar-se, com as poucas forças que lhe restavam, a caminho da igrejinha que ficava próximo dali.(6)
Foi desse modo que lá conseguiu chegar. Esvaindo-se em sangue.
Morrendo aos poucos.
Quis levantar-se, mas caiu nos braços do prior.
– Padre, meu bom padre. ajudai-me!
O sacerdote impressionou-se.
– Meu Deus! Nesse estado. Mas que aconteceu?…
Em voz agonizante, mal se ouvindo por vezes, o pobre rapaz, único sobrevivente dos quatro irmãos, contou a sua história triste. Triste e dolorosa. O padre benzeu-se rapidamente e benzeu o moribundo.
– Meu pobre filho. Tu e os teus irmãos foram certamente enganados pelo Demónio, na figura de uma mulher perversa.
E suspirando, de olhos erguidos ao céu:
– Meu Deus, fazei que ao menos se possam salvar as suas almas!
Com muito custo, o sacerdote conseguiu levar o rapaz agonizante ao local onde se desenrolara a terrível e singular batalha. Mas, chegados ai, o jovem não resistiu mais. Tombou também para sempre, ao lado dos outros. De novo estavam juntos, os quatro irmãos!
Lá os enterrou, o bom sacerdote, colocando-os lado a lado, rezando-lhes as últimas orações, para que as almas não se perdessem.
E fosse pelo que fosse, a verdade é que sobre a campa de cada um dos quatro irmãos surgiu, mais tarde, um penedo, (7) que passou a marcar para o futuro a triste sepultura.
E a povoação que depois se ergueu nesse mesmo local a denominar-se a Terra dos Quatro Irmãos. E, mais modernamente, apenas Quatro Irmãos. (8)

________

Notas:
(5) – A luta dos quatro irmãos – tenho escutado várias referência a esta luta e nem todas são concordes na maneira como eles lutavam. Mas a versão mais divulgada é a que se batiam à paulada. É bem de admitir que tenha sido á paulada, pois era muito frequente em tempos antigos, e sobretudo no Norte do País, o jogo do pau ou luta do pau, empregando o característico varapau, vara comprida e forte, geralmente talhada numa haste de marmeleiro, que servia de cajado e de arma.

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