A morgadinha de Val-d’Amores

morgadinha
SCENA VII – Frederico,  JOÃO LOPES, e cabos

Joao Lopes – Olhe, se foge, que o snr. vae levar pancada de crear bicho. Estão-se a preparar os valentões.

(Frederico apita rijo. Apparecem de differentes sahidas 6 cabos de policia que escutam Frederico, em quanto se repete a cantilena. Finda a cantilena, ouve-se fóra o rumor da desordem, e o estalido dos varapáos. As cantadeiras fogem alvoraçadas a dar gritos.)

 

SCENA VIII – Frederico, cabos, um desconhecido, e camponios

Frederico (com intimativa bellica) – Formem em linha. Carregar armas!

Um cabo – Estão carregadas.

Frederico – Vamos ser atacados pelos desordeiros. Á voz de fogo, atirem.

(Vê-se atravessar a scena por entre o povo um Desconhecido de chapéo derrubado, o rosto coberto por um lenço, de caraça, polainas e briche nas pernas e pés, com um grosso páo de choupa. Proximos de Frederico os valentões param, com os páos cruzados nas pernas, gingando em attitude ameaçadora. Frederico, não se desvia dos cabos. De repente, rompem de fóra uns poucos varrendo o campo a pauladas.) 

Frederico- Cabos de policia, sentido! Preparar armas!

(Sáe perto da bocca da scena o Desconhecido. Escosta-se ao páo observando os movimentos dos valentões, os quaes vem já avançando, já recuando, crescendo sobre Frederico.)

Frederico (aos cabos) – Aperrar armas!

(Uma paulada faz soltar a clavina das mãos d’um cabo. Os outros fogem. Frederico recúa, apitando rijamente. No maior aperto, o Desconhecido salta para a beira d’elle, descobre a choupa do páo, e arremette com os aggressores. Estes, forçados pela destreza, fogem,logo que o primeiro cáe d’uma paulada. A vozeria cresce no momento em que o palco está despejado. O Desconhecido trava do braço de Frederico, e o traz á bocca da scena.)

Frederico – Quem é o valente homem a quem devo a vida?! quem é?

Morgadinha (arrancando o lenço do rosto) – Sou eu! salvei-te, Frederico!

Frederico – Ó morgadinha de Val-d’Amores! Tu!.. oh! tu!.. Como és ideal e angelica! (Ajoelhando.)

FIM DO SEGUNDO ACTO.

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“A morgadinha de Val-d’Amores” – Camilo Castelo Branco (1871)

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