Bravo Jardineiro contra Caceteiros

Cena de romance histórico sobre as guerras liberais portuguesas, em que um jardineiro armado de varapau, para proteger um jovem, bate-se com um grupo de caceteiros enviados pelo morgado.

“Distinguiram por fim ao longe uma figurinha de militar.

Era João, vestido de guarda nacional, farda curta de saragoça portuguesa, com botões brancos, gola azul claro, laço azul e branco no chapéu redondo.

Do ponto onde estava, o mirante sobranceiro ao pátio, em face ao alpendre da escada, ia vê-lo entrar e, talvez como antigamente, ele viesse falar-lhe, arrependido da imprudência.

Pensando assim, seguia-o Maria num olhar de ansiedade, encobrindo-se com as trepadeiras do caniçado, para não lhe dar a confiança de mostrar que o esperava.

Vinha já perto, quando notaram dentro movimento desusado.

Corria o quinteiro, e meia dúzia de cavadores de enxada, batendo os pés descalços na terra endurecida pelo calor, varapaus ao ombro, falando alto.

Desacorrentara o criado dois grandes cães de fila, amarelos, rabo cortado, focinho negro, faces ameaçadoras, que de noite rondavam ganindo e uivando.

Ao chegarem ao pátio, ocultaram-se na cocheira homens e cães, e o quinteiro foi esconder-se por traz do postigo, como se quisesse fecha-lo mal entrasse João.

– Que é isto, José? – perguntou Maria, suspeitando uma violência.

– Ordens do senhor morgado – respondeu ele, rindo alvarmente – não quero saber!

Mas Josefa da Esperança, muito nervosa, nem lhe dera tempo à resposta, e ao ver João em frente do mirante, avisou-o:

– Não entre, que lhe querem bater!

Maria, correndo ao muro, bradou-lhe também:

– Foge, foge!

Numa grande excitação, gritava a prima:

– Aqui d’el-rei! Aqui d’el-rei!

Ele recuara ao ouvir os gritos e, vendo aparecer ao postigo a cabeça lanzuda, compreendeu que lhe faziam uma espera.

Desembainhou a baioneta, aprumou-se garboso, e avançou muito pálido para a porta, que de dentro fecharam com estrondo.

Sentiu então Maria que o amava, vendo-o encarnar o tipo glorioso, cavalheiresco, da imaginação das raparigas, geralmente fixado nos que têm por ferramenta a espada e a lança do cavaleiro andante de outras eras.

Dirigia-se-lhe com o coração nas mãos, como ele no pomar, num rubor de sangue, lavada em lágrimas, pondo as mãos:

– João, João, não te percas por minha causa!

Sem a atender, batia exasperado no portão com o punho da baioneta, bradando querer falar ao senhor Martinho Vasques.

Ouvindo ladrar ameaçadores os cães de guarda, virou-se Maria para o pátio.

Aos gritos de socorro de D. Josefa, correra de dentro o jardineiro com um grosso varapau cruzado como a espingarda, a ponta á altura dos olhos, fortemente cingido ao corpo.

– Querem bater no Joãozinho! – explicou-lhe ao vê-lo.

Correu o veterano ao postigo, aferrolhou-o, e berrou aos caceteiros que se fossem embora.

– Quem manda aqui é o fidalgo! – respingou o quinteiro, fazendo-se forte à frente do bando.

Mas os camponeses, receando as fúrias do velho, mantinham-se indiferentes, apoiados aos bordões, num riso estúpido.

– Deixe-me abrir a porta! – insistia o José da Quinta, querendo deitar os cães, segundo as ordens do amo.

– Primeiro te racho de meio a meio! -ameaçou mestre Jacinto, encostando-se ao postigo.

– A vem-te com estes! – casquinou o quinteiro, abrindo com um pontapé a porta da estrebaria.

Saíram ladrando excitados _Marujo_ e _Sultão_, mas conhecendo o jardineiro, não lhe pegaram.

– És pior que os cães, que os animais não têm entendimento e não fazem mal só porque os mandam!

E o velho rilhando o dente, na fúria que o tornava terrível, avançou, crendo-se em plena batalha, e fez recuar o capataz e o rancho, levando-os de roldão até ao fundo do pátio.

Ai, metido em brios, tentou defender-se o mandatário do morgado, mas caiu, lavado em sangue, com uma cacetada na cabeça.”

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“Os Bravos do Mindello” – Faustino da Fonseca (1906)

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