Desarme

Serão oito horas da noite. O céo está recamado de estrellas, mas os corpos não projectam sombras, porque o luar só apparece ás nove horas. O sitio incute respeito: é o monte da via-sacra. Se fosse de dia ou o luar brilhasse, poder-se-hiam contar as cruzes que, a partir da capella, erecta no cimo do outeiro, se erguem pelo monte abaixo, numa distancia de vinte passos de umas ás outras.

Numa pequena elevação, sobranceira ao caminho, a cerca de trinta passos do primeiro cruzeiro da via-sacra, guiada a vista pelo brilho do lume de um cigarro, acabava-se por distinguir o vulto de um homem, assentado, com o pau traçado sobre os joelhos. Era o mestre carpinteiro, que esperava alli o visinho, para lhe provar a justiça da sua causa.

Quem lhe podesse ler no cérebro acharia isto: — Muito mal… não… Quinze dias de cama e nada mais… Há-de levar a sua dose, para não tornar a ter o atrevimento de levantar uma cadeira para mim!

E tão certo estava de si, que continuava philosophicamente a fumar o cigarro, esperando o lavrador com a pachorra, com que um pescador de profissão espera horas até que uma truta se lembre de vir brincar com o anzol.

Por fim lá lhe pareceu que ouvia ruido de passos, e ergueu-se. Não se enganara: era o lavrador. Subia este a ladeira apressadamente, estimulado pela lembrança do susto com que a mulher o estava esperando, quando o carpinteiro, de um salto, se achou defronte delle. O lavrador reconheceu-o immediatamente, mas não se deu por achado, e perguntou com voz cuja affectada segurança trahia o sobresalto interior:

— Quem temos por aqui ? O outro, rindo sarcasticamente, respondeu :

—Alguém que vem ver se você e homem para outro!

— E’ vocemecè, sr. José? — redarguiu o lavrador, buscando ganhar tempo para achar sahida áquelle aperto.

— Um seu criado, para o servir com umas azas de pau!… Pôde mandar dizer isto ao seu doutor, a vèr o que elle de la responde! — proseguiu o carpinteiro.

—Elle que ha de dizer? — retorquiu o lavrador, tentando levai o pelo brio.

—Ha-de dizer que nunca pensou que o sr. José viesse esperar um homem que nunca lhe fez mal, e que nem sequer traz um pau como esse para se defender.

— Pois dirá… dirá, sim senhor, mas… enganou-se! … Não traz pau ?… Faz mal, se bem que, nessas mãos de pouco valia!… Mas leva rumor e acabemos com isto, que eu não vim ca para conversar!

E, fincando um pé um pouco mais atraz, ergueu o pau. O lavrador comprehendeu que não havia compaixão a esperar, e, confiando com razão no vigor dos próprios músculos, deu um salto para deante, ao tempo que o adversário erguia o terrível marmelleiro, e estreitou-lhe o corpo com os braços. O carpinteiro, vendo-se abraçado, deixou cahir o pau, já agora inútil, e arcou com o vivinho, murmurando apenas por entre os dentes cerrados :

—Ah! cão, que me embaçaste!

Começou então uma lucta horrivel entre aquelles dois homens, ambos ainda jovens, ambos vigorosos. Depois de alguns minutos de esforços inauditos, para ver qual delles subjugaria o outro, o pé do carpinteiro encontrou uma velha raiz de árvore, que o fez cahir de costas, arrastando na queda o seu contrario. Este, aproveitando a vantagem, desprendeu um dos braços e apertou vigorosamente o pescoço do inimigo, que espumava de furor, sem exahalar um queixume. Não tardou, porém, que uma ideia horrível viesse paralysar o estorço do lavrador. Pareceu-lhe que o vencido tentava metter a mão no bolso, viu-se esfaqueado, passou-lhe deante dos olhos a imagem da mulher e a orphandade dos filhos, ergueu-se e fugiu.

“Contos” Pedro Ivo (1874)

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