O jogo do pau – Artigo

O comprimento ideal mede-se dos pés até à boca. Deve ser de lodão, madeira leve, suave e resistente. A base é mais larga que a ponta e a espessura não ultrapassa os três centímetros. Manejado com destreza, o varapau é arma contundente. Esgrima característica portuguesa, praticada pela gente do povo, o Jogo do Pau está quase extinto. Subsistem alguns grupos e praticantes quando, ainda há 60 anos, era popular em todo o país.

Só os mais velhos recordam as rixas a varapau em feiras e romarias. Por motivos premeditados, palavra brejeira uma moça, um dinheirito mal contado, dito jocoso, desagravo ou ajuste de velhos e imperfeitos negócios ou, simplesmente, não ir com a cara de fulano, e logo as rachas (os varapaus) silvavam no ar, chocavam-se e caíam em cabeças e costelas. Os adros viravam terreiro de combate.

Os mais hábeis varriam literalmente as feiras, sempre com o varapau zumbindo e batendo duro em quantos se acercassem. Rodeados ou metidos em ferradura, zurziam adversários, escacavam barros, afugentavam animais, num reboliço medonho de tendas desfeitas, vinho derramado, corpos prostrados e sangrando, os gritos das mulheres e de crianças, ladrar de cães, sinos a rebate.

Acometidos de frenezim selvagem, como possessos, os puxadores redemoinhavam e volteavam numa dança satânicam sempre de roda. Só se detinham quando saciados ou exaustos, parados por bala ou carga de muitos cavalos ou cavaleiros de sabre em riste a lacerar-lhes o corpo. Ou, então, escapavam-se com a retirada estudada.

Eram, estes puxadores afoitos à desordem, conhecidos e temidos. Bastava anunciarem-lhes a chegada temendo-se o inevitável. E o inevitável acontecia sistematicamente: provocar outros com igual fama e perícia, medir forças e eficácia em duelos, consolidar o prestígio de valentões e serem «o mais entre os melhores». Camponeses, almocreves, pastores, artífices ou bandoleiros, percorriam regiões e demarcavam o «seu território», impondo outra lei, nunca escrita e de regras variáveis. Não admitiam parceiros e só toleravam os do clã familiar.

José Avelino Costa lembra-se de alguns, Em miúdo assistiu a grande rixas, «de pôr a vila em alvoroço». Na familia houve sempre eximios puxadores e ele próprio foi (e ainda é), agora como dirigente de um dos pouquíssimos grupos que mantêm viva a tradição da esgrima a varapau.

«Eram outros tempos, A minha família é conhecida como os «Feiras Novas». Lavradores, de Fafe. Quem se metesse com eles sabia que ia parar ao hostipal. O meu avô tinha seis filhos a quem ensinou a puxar. Um dia houve uma revolta militar e um pelotão colocou-se à porta da quinta. Deu na ideia do oficial que ninguém podia lá entrar; ora o meu avô queria entrar com um carro de penso para o gado. O oficial começou a ameaçar e, vai daí, o velho e os filhos reparam das rachas e puzeram-nos em debandada. Uma hora depois chegava a mesma tropa, mas reforçada. A minha gente, mais as mulheres e catraios, saltaram para a estrada e pronto… acabou-se em Fafe a revolta. A varapau»

O último dos «Feiras novas», meão de altura, seco de carnes, ligeiro de gestos, também teve fama e proveito.

«Alto lá! Eu sou puxador, mas  nunca fui zaragateiro. Mas nunca virei costas. Olhe: a maior paulada que apanhei foi com um cabo de um chuço; eu estava numa feira, fez-se uma rixa e vi o meu irmão no meio de uns quantos. Larguei a namorada, peguei num foeiro ao calhas, e quando já ia meter-me à luta, levo uma lauriçada na tola que Deus me livre! Viro-me para trás e vejo uma velha a chamar-me tudo. Tão velha que nem encontrão lhe dei!».

Histórias de pancadaria e desordem resistem ao tempo por todo o Norte. Especialmente em Fafe que presta homenagem à «justiça do cacete» numa singular alegoria em pedra. Ciosa dos seus valentes, Fafe tem lema: «Em Fafe ninguém fanfe».

Subsistem em Fafe dois dos escassos grupos de praticantes do Jogo do Pau, segundo a escola e estilo local, variante aperfeiçoada da galega e minhota, considerada a mais espectacular (com a de Lisboa).

O grupo, que com o seu congénere de Bucos, em Cabeceiras de Basto, mantém regular actividade, com treinos e exibições públicas por todo o país (já foram a França, obtendo muito êxito) é o «Kas Bak», nome bizarro a lembrar «Casbah» e essa é a referência. O grupo Desportivo e Cultural de «Kas Bak» Futebol Club nascei em 1942 e a designação retirou-a de um filme de aventuras sarianas!

«Gostaram do nome e adoptaram-no com um erro de ortografia», explica Francisco Novais Costa, vice-presidente.

Meia centena de atletas, entre rapazes e raparigas, estudantes e trabalhadores que treinam no Ginásio da Escola C+S local, de 15 em 15 dias e aos domingos. A maioria pertence a famílias de gloriosos puxadores, passando conhecimentos de geração em geração. Há marido e mulher. Há pais e filhos, tios e sobrinhos, irmãos. São todos amigos e unidos. Uma espécie de tribo respeitada pelos fafenses. Porém praticamente sem apoios e subsídios, vivendo de quotizações e da ajuda de uns carolas. O maior problema é, no entanto, a aquisição de rachas em lodão, porque esta madeira escasseia e só há um marceneiro capaz de as fazer.

Como é idoso e ninguém quer aprender a fabricá-las, em data próxima não haverá mais rachas convenientes. De momento o grupo dispões de 60 paus.

Arma natural que dispunham os populares e que muito jeito fazia para diversos fins: defesa, apartar gado, bordão, o pau de lodão é o preferido porque é difícil de quebrar ou lascar. Melhor que marmeleiro e buxo, «leveiro». Ora como varapau partido tornava o puxador vulnerável, o lodão tornou-se a madeira eleita e mais reputada.

Em Portugal o Jogo do Pau tem três escolas ou estilos principais: a do Norte (Minho e Trás-os-Montes), também conhecida como galega, e a do Ribatejo e a de Lisboa.

A do Norte caracteriza-se pelo grande alcance dos seus golpes de ponta e nos rebates, executados com uma só mão. A escola do Ribatejo é aparatosa e perigosa porque os jogadores se batem a curta distância, e a de Lisboa foi a que deu origem ao desporto, introduzindo no séc. XIX nos ginásios e salões da capital por José Maria da Silveira, conhecido como «O Saloio» e por Domingos Salreu que estabeleceram regas e disciplinaram princípios. O jogo foi bem aceite por burgueses, fidalgos e «sportsman». De forma de combate passou para modalidade de esgrima, muito apreciada também no Brasil, chegando a ter grandes esgrimistas. Editaram manuais muito completos, de mais de 100 páginas, descrevendo em pormenor leis, regras, golpes, contragolpes, paradas, com ilustrações. São raridades bibliográficas e os únicos existentes.

Fafe ocupa um lugar especial neste contexto criando estilo próprio. Tanto se joga em alcançe como perto, com volteios rápuidos, ataques e paradas vestiginosas. Estectaculas e elegante, a esgrima ao estilo fafense deve muito a mestres já desaparecidos, como josé «Reilho», António Pereira «Moleiro» e Augusto Freitas Carvalho, o «Susana». O «Kas Bak», ao longo dos seus 49 anos de existência, é fiel intérprete e conservador do estilode Fafe. Constitui em núcleo que mantém viva a esgrima tradicional portuguesa, com particularidade de ter jogadoras, mulheres e raparigas, que pedem meças a homens e rapazes.

Fafe e Cabeceiras de Basto são, no Norte, os únicos locais onde o Jogo do Pau se pratica. Não já campeonatos nem torneios, apenas encontros e exibições, embora há muitos anos se jogasse o pau em quase todas as vilas e aldeias do Minho. Quase tão popular como a Malha.

A rachas andava sempre na companhia do lavrador, em festas, feiras, romarias e arraiais. Arma de defesa (ou de ataque), conforme a situação ou circunstância e servia de aviso se fosse de lodão, querendo significar «aqui vai quem sabe». Bem mais honesta que a sinistra navalha…

As contendas já não se ajustam a varapau e a tradição das proezas e façanhas dos puxadores desapareceram. Já não andam à busca uns dos outros para se desafiarem, nem fazem apostas de «varrer feiras», nem combinam rijos duelos para «tirar teimas» de quem é melhor. Porque já os não há.

Agora há praticantes do Jogo do Pau e eles e elas só pegam nas armas em treino ou espectáculos. «Ás vezes faziam um certo jeito quando aparecem uns engraçados», diz Paula Gonçalves, exímia e acutilante jogadora.

Réplica da forma de defesa-ataque, com golpes e paradas, sarilhos e torniquetes, produto de muito treino e dedicação, nas exibições não se sabe o que mais apreciar: se a velocidade e destreza dos golpes e contragolpes, a rapidez dos movimentos, a agilidade dos passos, se a suspensão da velocidade do varapau quando este parece ir certeiro a uma canela, cotovelo, testa ou costas. Por vezes acontecem uns deslizes e lá se vai cacete nos ossos, pancadas que doem e mandam para a Urgência; outras vezes coloca-se mais entusiasmo e os puxadores puxam mesmo, com consequências previsíveis…

Regulado como está o jogo, os puxadores praticam as variantes convencionadas: o Jogo do Meio, uma algazarra em que os jogadores rodeiam um outro, o «desordeiro», que tem de escapar a pancadas e degladiar-se com sete ou oito adversários e adversárias até arranjar um ponto de fuga; o Traçado, que consistem nos jogadores atacarem e defenderem mutuamente; o da Namoradinha, situação que se passa entre um casal e um pretendente à dita; o Duelo, entre dois jogadores; o Varre Quelhas, em regra entre um puxador contra dois assantantes; o da Ferradura, em que um puxador, semicercado, põe em debandada muito povo que o quer manietar; o Batido, todos contra todos.

Os elementos do «Kas Bak» deixam as rachas no clube e têm como princípio nunca pegarem num pau em caso de contenda. A menos que a desproporção seja grande. O comportamento é igual aos atiradores da esgrima a ferros. A época dos espadachins e puxadores morreu de morte velha. Consideram-se desportistas, atletas de uma modalidade que, acreditam, vai ter melhores dias quando se reconhecer que é esgrima perfeita, um jogo que exige aptidões, boa preparação física, muita desenvoltura. «E preparação mental porque não se admitem arruaceiros e figurões», adverte Daniel Freitas.

Esperam receber subsídios para comprar equipamentos e fazer mais propaganda da modalidade. Desejam a criação de mais grupos e clubes estando dispostos a contribuírem para a formação de monitores e jogadores, a integrarem um movimento de recuperação do Jogo do Pau. Vão onde são convidados apenas pondo como condição o pagamento de deslocação e estadia. Ponto de honra: são amadores em absoluto.

Os mais novos sonham com equipamentos acolchoados, máscaras, luvas e caneleiras para se fazerem torneios competitivos quando houver subsídios e o Desporto reconhecer a modalidade. Disputando troféus simbólicos entre grupos nacionais e (por que não), estrangeiros. É que o Jogo do Pau também se pratica em Espanha, França, Irlanda, no Brasil e no Japão, com especificidades próprias mas próximas umas das outras.

Os mais velhos preferem o jogo tal como está, vernáculo e tradicional, sem grandes complicações e sofisticações. com as ajudas necessárias para evitar que desapareça de vez.

Jorge Cordeiro (Texto) – Pereira de Sousa (fotos)

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