A Pátria – Guerra Junqueiro

Guerra Junqueiro

Tive castellos, fortalezas pelo mundo…
Não tenho casa, não tenho pão!…
Tive navios… milhões de frotas… Mar profundo,
Onde é que estão?… onde é que estão?!…
Tive uma espada… Ah, como um raio, ardia, ardia
Na minha mão!…
Quem m’a levou? quem m’a trocou, quando eu dormia.
Por um bordão ?!…
E tive um nome… um nome grande… e clamo e clamo.
Que expiação!
A perguntar, a perguntar como me chamo!…
Como me chamo?… Como me chamo ?…
Ai! não me lembro!… perdi o nome na escuridão!…
(…)
E eu desatei a rir, eu desatei a rir,
E três dias cantei com mais três noites a seguir!

Não dormia a rainha de me ouvir cantar…
Oh, loucura minha, desventura minha!
Cantigas são graças para não chorar…
Mandou-me prender, mandou-me enforcar.

Chegaram as tropas e eu, desarmado,
Zás! desbaratei-as com o meu cajado!

E puz-me a cantar! e puz-me a cantar!

Tremendo, a rainha disse então ao rei:
Emquanto o não matem não descançarei.
Com teus cavalleiros vae-m’o tu buscar,
Traz-m’o aqui de rastros para o degolar.

Veio o rei á frente d’um grande estadão,
Zás! desbaratei-o com o meu bordão!
É de temer, é de temer
Um doido varrido com um pau na mão!…

E sempre a cantar! e sempre a cantar!

“A Pátria” – Guerra Junqueiro, 1896

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