(…)

Quer larápios refinados,
que tenham ostentação;
homem de muito dinheiro,
que importa seja ladrão.

Fale bem, tenha palavra,
seja muito… eloquente…
embora não diga nada,
tem um culto reverente.

Mas o pior desta lesta,
este é o meu desconsolo,
os pobres roem as cascas,
os maraus papam miolo…

Os pobres vivem famintos,
quasi sem pão, nem camisa,
outros em risos e festas
sua existência desliza.

Só nos resta a pele e o osso
neste jogo malabar,
oh! que artistas tão distintos,
ninguém os pôde igualar!

Mas quando virá um dia
a terminar esta farsa?
Jogador de pau valente
para varrer uma praça?

Quando surgirá um braço
cheio de força e de orgulho,
empunhando com denodo
o mais famoso estadulho?!

(…)

José Cypriano da Costa Goodolphim – 1907

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A Pátria – Guerra Junqueiro

Guerra Junqueiro

Tive castellos, fortalezas pelo mundo…
Não tenho casa, não tenho pão!…
Tive navios… milhões de frotas… Mar profundo,
Onde é que estão?… onde é que estão?!…
Tive uma espada… Ah, como um raio, ardia, ardia
Na minha mão!…
Quem m’a levou? quem m’a trocou, quando eu dormia.
Por um bordão ?!…
E tive um nome… um nome grande… e clamo e clamo.
Que expiação!
A perguntar, a perguntar como me chamo!…
Como me chamo?… Como me chamo ?…
Ai! não me lembro!… perdi o nome na escuridão!…
(…)
E eu desatei a rir, eu desatei a rir,
E três dias cantei com mais três noites a seguir!

Não dormia a rainha de me ouvir cantar…
Oh, loucura minha, desventura minha!
Cantigas são graças para não chorar…
Mandou-me prender, mandou-me enforcar.

Chegaram as tropas e eu, desarmado,
Zás! desbaratei-as com o meu cajado!

E puz-me a cantar! e puz-me a cantar!

Tremendo, a rainha disse então ao rei:
Emquanto o não matem não descançarei.
Com teus cavalleiros vae-m’o tu buscar,
Traz-m’o aqui de rastros para o degolar.

Veio o rei á frente d’um grande estadão,
Zás! desbaratei-o com o meu bordão!
É de temer, é de temer
Um doido varrido com um pau na mão!…

E sempre a cantar! e sempre a cantar!

“A Pátria” – Guerra Junqueiro, 1896

Barão de Espalha Brasas

É Fafe povoação muito moderna,
contando um séc ‘lo apenas de existência.
De Moreira de Rei foi subalterna
e sobre ela alcançou magna ascendência.

Na terra decadente, em fruto avonde,
havia outr’ora um nobre, altivo e ousado;
De Moreira de Rei era Visconde,
político influente e Deputado.

Homem franco e leal, de poucas tretas,
não ligava à coroa e aos brasões;
se o feriam, largava as etiquetas,
correndo o atrevido a bofetões.

Nas Cortes, certo dia, a uma sessão
a tempo não chegou; e um tal Marquês,
supondo que o Visconde era vilão,
censurou-o em gesto descortês.

O Visconde, que entrara pressuroso
inda ouviu do Marquês o insulso estilo
em que ele lhe chamava “cão tinhoso”,
mas sentou-se, fingindo-se tranquilo.

Finda a sessão, ao Marquês petulante
a frase censurou, de audácia rara;
porém este, num gesto provocante,
arremessou-lhe a fina luva à cara.

Ajustou-se o duelo; e competia
a escolha das armas ao Visconde.
Marcou-se p ‘ra o encontro a hora, o dia
e o local, que eu nunca soube aonde.

Qcultos da polícia e dos meirinhos,
no sítio da pendência, o fidalgote
compareceu, assim como os padrinhos.
Veio o Visconde e um homem c ‘o um caixote…

E dentro deste as armas escolhidas
pelo Visconde: as armas dos pataus!
Nem ‘spadas nem pistolas homicidas:
Eram dois resistentes varapaus!!!

O Marquês, em tais armas logo inepto,
ao ver aqueles paus de marmeleiros,
forçado a aceitar o estranho repto
pegou por sua vez num dos fueiros.

Começou a sessão de bordoada:
e o Visconde, com a mor placidez,
deu-lhe tanta e tão pouca fueirada
que o lombo pôs num feixe ao tal Marquês.

Mau grado tudo ser gente de sizo,
os presentes, em vez de lamentar,
não conseguiram sufocar o riso,
findando o duelo em gargalhada alvar.

Da hilariedade ao ver o desaforo,
acode gente; e além daquela gafe,
começam todos a gritar em coro;
“-Oh! Viva! Viva a Justiça de Fafe!!!”

De Moreira de Rei, pois, ao Visconde,
do duelo a propósito descrito,
se deve a origem, que a História esconde,
do ventilado e tão estranho dito.

“Barão de Espalha Brasas” – Inocêncio Carneiro de Sá

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Por centenas ou até milhares de anos, o varapau serviu de defesa contra o lobo, mas hoje em dia, os papeis inverteram-se e o lobo precisa de ajuda.

É importante preservar-mos as nossas tradições, mas mais ainda a nossa fauna, que essa é provavelmente, ainda mais difícil de recuperar.

Logo nas mãos o pastor
Seu cajado tomara,
Sem mostrar nenhum temor
Contra os lobos que achará
Revestidos de rigor.
-“Trovas ineditas de Bandarra“ – 1556

Mais d’huma vez já tem sacado o agno
Ao Lobo tragador! mais de vez huma
Na luta entre os Zagaes de mór idade
Tem feito respeitar o seu Cajado,
Em que sabe fazer todo o manejo
D’arma, como faze-lo nunca eu soube!..
-“Silveira“ – Thomaz Antonio dos Santos e Silva -1809

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Chegou em fim a desejada festa,
Onde as nossas Pastoras se ajuntavão:
Já nos frescos lugares da floresta
Os valentes cajados se arvoravão:
Cada qual revolvia na memoria
A vantagem, o premio, a victoria.

O sitio da contenda está patente;
Mas não se entende hum leve desafio:
Com razão se murmura, e toda a gente
Dos Pastores escusa o fraco brio.
Não pude soffrer mais: fui o primeiro;
Que saltei para o largo do terreiro.

No meio com valor me exponho à lucta,
(Cuido que por Amor era animado)
O forte Jonio a gloria me disputa;
Mas depressa ficou no chão prostrado.
Altos, alegres vivas se entenderão
E hum malhado cordeiro então me derão.

Pego nelle, e Themira procurando,
Themira, que mais bella do que a Aurora
Tinha estado tambem presenceando,
Aqui tens, gentilissima Pastora,
Lhe digo então, o premio, que pertence
A quem os corações domina, e vence.

O pejo lhe circula a rubea face,
Fica mais linda, fica mais galante:
Mas antes que o cordeiro me acceitasse,
Vai consultar o parternal semblante.
Pegou nelle, e , baixando os olhos bellos,
Me agradece com termos mui singellos.

(…)

O Mestre de Esgrima

Aquelle mulatão de ganforína
erriçáda e que lembra a carapinha
de um negro do Bihé — diz-me a visinha —
que é «bom vivant» e toca concertina.

Jogo do páo e do florête ensina!…
O figurão tem lábia, o «apomb» a linha!
Mas, por pagóde, um aio da Rainha
fez-lhe, uma vêz, presente de uma tina.

Vai ao palácio de um fidalgo á noute
dar-lhe lições de esgrima— E quem se afoute
a d’isto mal cuidar, dirão que é pêta…

Com os fidalgos ceia, joga, abanca.
E, emquanto améstra o esposo na arma branca,
— amestra a fidalguinha na arma preta.

“Mefistófeles em Lisboa” Gomes Leal – 1907

MANUEL BRAVO E JOSÉ MANSO

Bravo – era era homem gôrdo,
Altivo, muito insolente;
Com todo o mundo gritava,
Arrotando de valente.

Manso era baixo e magro,
Humilde bem comportado;
Cordato sempre com todos,
De todos era estimado.

Ambos visinhos moravam,
E Bravo a todo o momento
Levava a implicar com Manso,
Que o soffria paxorrento!…

Um dia que a paciencia
De Manso foi esgotada,
Pegou este n’um cacete
Deu lhe muita bordoada!!

Trocaram se logo as scenas
Ante o justo desaggravo!..
O Bravo então ficou Manso
E o Manso tornou-se Bravo!!!

-José Antonio Frederico da Silva – 1837