(…)

Quer larápios refinados,
que tenham ostentação;
homem de muito dinheiro,
que importa seja ladrão.

Fale bem, tenha palavra,
seja muito… eloquente…
embora não diga nada,
tem um culto reverente.

Mas o pior desta lesta,
este é o meu desconsolo,
os pobres roem as cascas,
os maraus papam miolo…

Os pobres vivem famintos,
quasi sem pão, nem camisa,
outros em risos e festas
sua existência desliza.

Só nos resta a pele e o osso
neste jogo malabar,
oh! que artistas tão distintos,
ninguém os pôde igualar!

Mas quando virá um dia
a terminar esta farsa?
Jogador de pau valente
para varrer uma praça?

Quando surgirá um braço
cheio de força e de orgulho,
empunhando com denodo
o mais famoso estadulho?!

(…)

José Cypriano da Costa Goodolphim – 1907

“As duas fiandeiras”

Em “As duas fiandeiras” de Francisco Gomes de Amorim, entre outras cenas em que o jogo do pau é “personagem” ficam aqui um par de excertos que se destacam:

Amores de Carpinteiro

Ana, jovial e chasqueadora, tomara a precaução de não gracejar com ele. Rosa conservava-se grave, falando pouco, rindo raras vezes, e empregando mais o império e fascinação do olhar, que sabia ser auxiliar poderoso, do que as palavras, que podiam tornar-se imprudentes. Joaquim amava já a fiandeira mais nova; porém não se atrevia, diante da outra, a mostrar preferências; e confessava a si próprio que não hesitaria em casar com Rosa, se Ana ali não estivesse.

Bastaram poucos dias para se estabelecer familiaridade e confiança entre os três. As raparigas iam-se tornando queridas de todas as pessoas da terra, não lhes faltando presentes dos lavradores abastados, nem convites para os serões das melhores casas. Os rapazes cruzavam-lhes por diante da porta, com ares de frangãos em frente de celeiro fechado; e os mais ricos desejavam oferecer a Ana Estela a sua mão e as suas juntas de bois; mas faltava-lhes ousadia para tanto. A assiduidade de Joaquim Bento fora logo notada; e não se sabendo a qual das duas ele requestava, mantiveram-se os outros a distância, e na expectativa; porque o carpinteiro tinha o seu tanto de bulhento, e jogava o pau como mestre. Alguns, que afirmavam não lhe ter medo, em vez de se apresentarem como pretendentes às fiandeiras, trataram de namorar Maria Rosmaninha, persuadidos de que assim o puniam de ter a preferência daquelas.

Romaria de Balazar

(1845)

— O primo José não traz pau? Foi esquecimento de todos os dialhos! Para estas festas não se vem de vergastinha.
— Cuidas que a cousa dará de si?
— Boa dúvida! O Bento azedou-se por o Pedro conversar a Rosmaninha. Eles ambos são homens; porém o Joaquim joga melhor. O que vale ao primo de Laundes é não se escaldar tanto. Se a pancadaria começa, é a valer. Toda a rapaziada de Laundes e Torroso está na romaria e acode logo pelo Pedro, contra os de Avelomar.
— Isso é assim, Manuel; mas, pela direita razão, quem a tem é o Pedro; porque 0 Bento não quis a Rosmaninha, segundo me consta.
— É verdade. E eu cá ponho-me ao lado do de Laundes, embora se diga que não defendo os da minha terra.
— Aqui não há terra; há a gente fazer o que é direito. Em chegando ao arraial, compro logo cajado…
— É preciso que os haja lá, à venda.
— Sim?… Empresta cá a tua navalha — pelo seguro… E vai andando devagar; é um instante, enquanto arranjo qualquer vara de carvalho. Verde, trabalha-se depressa; e não é pior para abrir caminho, se for necessário.
— Carvalho, castanho, ou espinheiro. . . por ai há deles em barda. Pega a navalha e avia-te. O Joaquim vem de casaca, e traz pau! Basta ver isso, para se tomar sentido. Aquilo é grimpador, como pimpão de feira! Não lhe quero mal; porém, nunca engracei muito com gente briguenta e amiga de barulhos. Anda depressa, que eu vou indo devagarinho.

Manuel juntou-se ao rancho; e José alfaiate cortou tão gigante varejão, que poderia, em caso de necessidade, servir para verga de vela de catraia; e foi seguindo os outros, ao mesmo tempo que ia descascando e alisando o pau, Joaquim tornara-se casmurro, desde a fonte dos Namorados. Ana e Rosa também não davam palavra. O seu bando reuniu-se ao do Lameiro, não por simpatia, mas por um desses acasos, tantas vezes funestos, que, em vez de afastar, aproxima os indivíduos que se não amam.

Pedro Laundes travou conversação em verso com Maria Rosmaninha. Joaquim bem desejaria ouvi-los, ou interromper-lhes o dialogo, provocando Pedro; porém não se atrevia a fazê-lo na presença das fiandeiras; e bem percebia que já tinha causado a frieza delas, com a questão de ao pé da fonte.

Roía, pois, silenciosamente o seu despeito, quando viu aproximar-se, coxeando e abordoando-se ao grande varapau verde, o mestre José alfaiate.

— Que é isso? Foi cortar pau novo?
—É  verdade; torci o pé; e se não trouxesse a navalha, estava bem arranjado.

Todos se interessaram muito por saber como tinha sido a torcedura, e se lhe doía.

— Dói como todos os demónios. Fui a saltar aquele valado das silvas, adiante da fonte, e vai, senão quando, escorrego, o zás!
— Caiu?
— No lameiro… que… por baixo… entendes?
— No lameiro? Não tem nenhum salpico de lama!
— Sim?… pois ai é que está o mal.
— Gomo?
— Quis equilibrar-me, vou contra as malditas pedras, e fiquei…
— Com 0 pé torcido. — acudiu Manuel Fernandes.
— Exactamente.— tornou o alfaiate, agradecendo-lhe com os olhos o auxilio.
— E custa-lhe muito a andar?— perguntou Ana Estela.
— Hum… nem por isso. Ao principio, sim; cuidei que ficava ali. Mas, depois que cortei 0 pau, já vai passando a dor.

Dizendo isto, esqueceu-se completamente de que estava com o pé torcido, e saltou uma poça, sem auxiliar-se do pau. Só Joaquim Bento fez reparo nesse descuido, e começou a estudar-lhe os movimentos. Dai a minutos, viu-o entregar sorrateiramente a navalha a Manuel do Lameiro.”

“As duas fiandeiras” Francisco Gomes de Amorim, 1881

“A Sibila” Agustina Bessa-Luís

sibilaSubitamente, um redemoinho de desordem ferveu, alastrando logo com um corricar de cachopos que se arrastavam sob as pernas do poviléu, e o escândalo ainda morno, ainda lento, das mulheres que reajustavam na nuca os lenços de algodão e buscavam no poial das portas um degrau seguro para abrigadamente presenciarem. Mas a luta embraveceu, magotes como vagas chocaram-se, confluindo das margens do largo, ouvia-se entre gritos o seco rumor dos paus que embatiam, estalavam, eram lançados longe, caindo sobre as tendas ou os arraiais das louceiras. E, então, numa clareira que se foi desenhando mais vazia, mais circular, destacou-se o pequeno vulto de Francisco Teixeira que avançava, grave e tranquilo, repelindo à sua volta o eriçado dos marmeleiros que combatiam, iam cedendo, recuavam, dispersando-se nas alas da multidão que se agitava, ondulando como um corpo que voga na maré. Havia sangue; os andores tinham parado na ladeira e os anjos choravam, não se atrevendo a abandonar o posto, suados sob as vestes debruadas com pele branca, de coelho, as botas amarelas de duraque muito atufadas na poeira. Sob o pálio, o abade, recolhido, mansamente esperava, entre as opas vermelhas cujas pregas o sol riscara de violeta e as filas de crentes ajoelhados sobre os lenços de bolso. «Então essa guarda?»

“A Sibila” – Agustina Bessa-Luís, 1954.

Uma Tragédia na Caça

(conto completo em https://archive.org/stream/caadasportugue00aauoft#page/170 )

— Espere, que eu já lh’a dou — e dizendo isto o guarda correu à casa. O doutor seguiu-o, mas poucos passos tinha dado, no pequeno terreiro que a defrontava, que já o homem estava de volta, com uma foice roçadora, e arremetia contra ele, atirando-lhe estas palavras:

— Tome lá a perdiz — acompanhadas dum golpe temeroso à cabeça — uma pancada redonda — como lhe chamam no jogo do pau, e que dada com uma foice é sempre mortal.

João de Bettencourt conhecia todos os segredos daquele jogo. Nas suas visitas a Salvaterra frequentara os melhores jogadores do Ribatejo, aperfeiçoara-se em Lisboa, na escola do celebre José Maria, o Saloio, e nos lugares por onde passara tinha deixado recordações da força do seu braço, da sua destreza e agilidade. Deu um salto à retaguarda, e a foice passou-lhe, como um relâmpago, diante dos olhos.
Cresceu o outro sobre ele, e atirou-lhe o segundo golpe também atravessado, que não o alcançou, e ao terceiro, de ponta, o doutor, furtando o corpo, desfechou. . .

O estrondo do tiro confundiu-se com um grito: o malvado caiu. Estava morto!

“Uma Tragédia na Caça” – Zacharias d’Aça, 1898.

As arrecadas

asarrecadas

No outro dia, manhãzinha cedo, havia de o Neto marchar para a feira, com os dois novilhos à soga.

Os animais eram galhardos, escorreitos e sãos, benzesse-os Deus; de dez moedas para riba com certeza davam. E o Neto’ botava já contas à vida no destino daquele dinheiro: — três para a décima, quatro para emprestar a juros de um alqueire cada, e as restantes, com essas compraria as arrecadas da filha.

Ai! as arrecadas! Até que enfim, a Adelaide ia ter umas arrecadas; e só de lhe lembrar o alegrão que a cachopa sentiria ao ver as ricas argolas de ouro,  enramalhetadas e lindas, já todo se consolava o pai.

— Tu como as queres, cachopa?

De qualquer geito ela as queria; como fosse da vontade de senhor pai…

— Grandes, hein ?

— Sim, ele sempre será melhor.

Não mostrava muito empenho — sempre seria melhor… Mas os seus belos olhos luziam já, como se estivessem vendo ali bem perto, ao alcance da mão, os enormes brincos, de um lavor complicado, com florinhas em relevo, e sua pedra de cor viva, a dar-lhes graça.

O pai desejava, porém, informações miúdas e precisas; não fosse ele, na sua ignorância, comprar coisa fora dos termos.

— Pintalgadas, hein, que te parece?

Parecia-lhe que sim. Uns “não me esqueças” pequeninos em toda a volta, ficariam a calhar. E numa palavra — o senhor pai que visse bem se lhas podia, arranjar iguais ás da Teresa. Lembrava-se ?

Sim, tinha uma lembrança, não havia duvida.

— Pois, está dito, como as da Teresa: grandes, bem trabalhadas e com florzinhas. Dito.

E festejando-lhe a bonita cara com a mão calosa e larga, deu as boas noites.

Caminho do quarto, fez ideia da impaciência em que o esperaria a filha no dia seguinte, das vezes sem conta que ela iria à janela a ver quando o lobrigava na volta da estrada, ao longe, entre os dois grandes pinheiros mansos.

— Presunçosas, presunçosas! — dizia baixo — Que ele também se a presunção fosse tinha…

E pegou a despir-se para se meter na cama. Mas a voz da filha ouviu-se fora.

— Senhor pai, olhe…

— O que é rapariga?

— Se me comprasse também uma caixinha prás arrecadas…

— Compra-se a caixinha, fica descansada.

-Olhe.

— Hein.

— Se eu fosse consigo ?…

— Hom’essa! E quem há de tratar da obrigação?

— Falava a alguém.

— Tens medo que me roubem no caminho?

E largou a rir.

— Cá de mim, não. Mas…

— Nada, fica, fica. Aquilo não é romaria; não há lá danças. Negócios, tudo negócios. Mulheres não andam pelas feiras.

Ela suspirou, tinha grande vontade de ir. Mas, enfim…

— Boa noite, disse desconsolada.

— Boa noite.

* * *

Mal o dia rompeu, logo o Neto desceu à corte, a aparelhar os novilhos. Passou-lhes a soga nos chifres, tirou-lhes com cuidado a poeira do pelo;e depois de ir buscar atrás da porta a aguilhada de marmeleiro, passou os dedos no ferrão a ver se estava agudo, botou a jaqueta ao ombro e partiu, acenando aos novilhos que o seguiram aos saltos.

A feira ficava longe, num soito largo, onde castanheiros velhos e enramalhados punham na relva fresca enormes manchas de sombra.

Havia um grande chocalhar de campainhas: os vendedores passeavam os animais, encarecendo-os e gabando-lhes a boa andadura, o ensino apurado, a submissão e a valentia. Discutiam-se defeitos, falava-se com ciência em névoas dos olhos, nódoas nos dentes, – peito aguado, má boca ou mau trabalho.

Sobre pedras, alguns vendedores tilintavam uma a uma, punhados de libras, cuidadosamente, verificando se eram das boas. Morgados e ricaços, de esporas e chibata, botas altas de montar, passavam devagar, cumprimentando popularmente em grandes mãosadas, apreçando os bois, com grande ar de entendidos. Um abade — troquilha, de chapéu largo, jaquetão comprido e cigarro na boca, tentava manhosamente, num contracto retórico, impingir aos fregueses uma égua escanzelada e velha.

Palrava-se muito: em grupos havia mesmo ralhos, palavras feias, princípios de bordoada grossa.Junto ás pipas, decilitrava-se, em saúdes, por grandes malgas vidradas.

O Neto chegou tarde; mas em volta dos novilhos armou-se logo uma roda de compradores. Alguns arrebitavam-lhes o beiço para ver a idade, miravam-lhes bem as patas, comentando a perfeição dos cascos. O que ali estava à vista de todos (o Neto o afirmava) era trigo sem joio: animais de uma cana só.

— Quanto quer p’los bichos, ó tio ?

Dez moedas ; era o preço.

— Puxadote, hein? puxadote.

E remiravam ainda, separadamente e miudamente o corpo de cada animal, passando-lhe a mão por todo o comprimento do lombo, ameigando-o com pancadinhas doces. A junta despertava interesse.

— Diga lá a ultima palavra, a ultima.

O Neto declarou que a ultima palavra era — dez moedas. Nem mais nem ontem. Nunca fora homem de regatear; nada, isso era bom para ciganos.

— Nove moedas, toma lá dá cá; escusa de ir mais adiante…

E faziam já menção de rapar do bolso as nove moedas, e contar-lhas ali num pronto.

— Por menos de dez ninguém mos leva.- É escusado.

— Nove e meia.

— Nada.

Mas pessoas, em volta, metiam-se no contraco. Verdade, verdade, seu Neto. Nove moedas e meia era um bom preço ; não senhor, era um bonito preço.

Altercou-se; alguns iam-no agarrar, arrastavam-no fora do grupo, falavam-lhe devagarinho ao ouvido. Que diabo, homem, a oferta não era de desprezar. Visse bem que eram nove moedas e meia — dez libras e seis tostões ! Era um alto negocio, um negociarrão!

Outros segredavam-lhe amigavelmente nue não cedesse; o outro chegaria ás dez. Estava encantado com os animais.

Mas um vélhote chegou. Pediram-lhe o parecer.

— Dez moedas é de mais, você que diz ? perguntou o comprador. — Eu até ás nove e meia ainda dou.

O velhote adquiriu maneiras de juiz, prestes a julgar uma causa celebre. Pediu fogo a um deles, acendeu pachorrentamente o cigarro.

— Então você quer dez moedas ?

O Neto acenou com a cabeça.

— Você (para outro) dá as nove e meia?

— Saltadinhas.

— Pois ai vai o meu conselho; vende-se os bois p’las dez menos um quarto, e o outro quarto vai-se beber de vinho, em súcia.

— Aprovado.

— Dito.

Contou-se ali o dinheiro, e foi-se beber o quarto em súcia.

Depois o Neto partiu; tinha umas coisas a fazer; tinha que tratar dos negócios, deixou ainda os amigos discutindo de malga na mão, em volta de uma pipa.

Abalou para o lado dos ourives; correu-os todos, de cabo a rabo, analisando bem os brincos pendurados em cartões verdes à volta das barrancas, ou metidos em caixinhas, por cima dos mostradores.

Custava-lhe o decidir-se; por fim, um tanto namorado por dois ricos argolões, fortes e caprichosamente floreados, perguntou a medo o preço.

Veio avia-lo a mulher do ourives, uma senhora alta, gorda e loira, de mãos finas e brancas, bonitos modos, falas muito doces; a sua voz tinha um tom estrangeiro, carregava muito nos rrs.

— Os lindos brrincos custam ao sinhorre trreze mil réis.

— Não faz um abatimentozinho ? aventou o Neto, vagamente.

— Não sinhorre, não pode serre menos.

E convencia-o com argumentos brandos.

— Eu pode venderre outrros mais barratos; mas estes são bons. Muito na moda; muito bons.

Então, tirou da algibeira a bolsa e pôs-se a contar o dinheiro; queria também uma caixinha, daria mais a mais alguma coisa se preciso fosse.

Ela arranjou-lhe uma caixa preta de forma triangular, meteu-lhe dentro as arrecadadas, cobriu-as preciosamente com frouxel branco.

— Pronto.

E com um gesto gracioso apresentou-lhe amavelmente a caixinha; ele pagou sorrindo. Pediu ainda um papel para embrulhar, e sepultou com cuidado os brincos na algibeira de dentro.

Caiam as trindades quando largou da feira. Ia-se gente embora, puxando os bois à sóga; apenas alguns feirantes meio bêbados pairavam ainda ao redor das pipas.

Estrada fora o Neto de novo pensou na filha. Que alegrão! Botava as mãos ao peito, palpava a saliência da caixa. Era verdade, levava ali a prenda tão cobiçada, há tanto tempo prometida… E adivinhava-a na janela. espiando a estrada, apesar da escuridão da noite, julgando a todo passo vê-lo chegar, subir a escada, atirar-lhe ao regaço as belas arrecadas doiro. A moça por certo ficava doida. Que alegrão, que alegrão!

E alargava o passo.

A noite era negra e silenciosa: raras estrelas tremiam apenas escassamente no azul enevoado do céu; a espaços o piar melancólico dum mocho varava o ar; o vento soprava surdo por dentro dos pinheiros.

O Neto, de mãos nos bolsos da jaleca, varapau debaixo do braço, caminhava.

Perto havia uma encruzilhada de má fama. Diabo! Um pressentimento lúgubre, quasi o fez parar; mas tentou recuperar sangue frio. Ora bolas, que crença medrosa! Pois não queriam ver o homem com receio de passar a encruzilhada? Tinha graça!

E estugou mais o passo, ansioso e ofegante.

Mesmo no sitio em que as estradas se cruzavam, três homenzarrões, de cacete erguido, num pronto o rodearam.

— O’ amigo, poise o que leva!

Ficou sem pinta de sangue. Logo três, Senhor, logo três! Quis fingir-se um pobre diabo, sem dinheiro para lhes poisar, que o deixassem seguir o seu caminho, que o deixassem.

— Vá de cantiga, berram-lhe, pois o que leva!

Pois ele havia de entregar assim, imbecilmente, passivamente, o preço dos seu bois, as arrecadas da sua filhinha?…

— Eu cá de mim não levo nada comigo. . .

— Isso é que vamos ver.

E um dos salteadores adiantou-se, ia deitar-lhe sofregamente a mão ás algibeiras. O Neto recuou dum salto e despediu-lhe rija pancada à nuca; mas um companheiro aparou o golpe; com destreza, e então os três deram de malhar no pobre homem, brutalmente, em cacetadas que o, mediam de ilharga a ilharga, desvairados, furiosos, até que mais certeiro golpe, apanhando-o pela cabeça, deu com ele em terra, exangue, sem sentidos…

Foi um carreiro do lugar, vindo de Coimbra nessa noite, quem o achou na valeta, imóvel, mudo, numa poça de sangue, sem dar cor de si. Carregou-o jeitosamente até ao carro; ali o depôs sobre a palha, que havia crescido da ração dos, bois.

Eram altas horas quando chegaram ao lugar; a Adelaide estava numa aflição, com tal demora. E apenas lhe disseram do ocorrido, largou a gritar, desfazendo-se toda em lágrimas, juntando as mãos num desespero, soluçante, doida de dor.

— Bem me adivinhava o coração, bem m’o adivinhava. Ai meu rico paizinho,que m’o mataram. Galgou as escadas, e ela mesma, com a ajude do carreiro, trouxe o Neto pelo corredor, fora até a cama.

Vieram vizinhos, numa balburdia, solícitos, oferecendo o seu préstimo, todos empenhados em dar o seu auxilio naquela desgraça. Um deles foi chamar o medico.

Afinal, o homem estava apenas desmaiado. Tinha a cabeça ferida em duas partes, nódoas negras em todo o corpo, a cara toda ensanguentada, mas havia de salvar-se. E aplicaram só de pronto mésinhas.

A Adelaide ficou a rezar fervorosamente à beira do leito, com os Olhos no pai. Pela volta da madrugada é que ele se voltou debaixo da roupa.

— Ai, és tu, cachopa?

— Senhor pai! E beijou-lhe as mãos.

— Moeram-me de pancada… Por pouco me não mataram.. Roubaram-me…

Teve um suspiro fundo, que o abalou todo e fez torcer de dor, fincando os dentes nos beiços.

— Lá se foi o dinheiro dos novilhos…

E como reparasse que ela soluçava muito:

— Não chores, não; pra que? Perderam-se os novilhos? As vacas tornam a parir.

Suspirou outra vez. E depois, mais dolorosamente:

— O pior foi roubarem-me as arrecadas!

Armando Erse de Figueiredo (João Luso)
em “A Novela Semanal” 16 de Maio de 1921

 

É Valente?

Eduardo_de_Noronha
Eduardo de Noronha

— Pois Luiz Alves, na sua qualidade de soldado de cavalaria miguelista, dos celebres dragões de Chaves, tomou parte em todas as ações em volta do Porto, de Lisboa, nas batalhas de Almoster, da Asseiceira, e obteve uma condecoração pelo seu valor em campanha.

— É valente ?

— Valentíssimo. De génio brigão, irascível, varreu feiras a pau, desarmou escoltas e fugiu umas poucas de vezes ao braço da Justiça. Respondeu por fim no julgado de Vila Pouca de Aguiar, a dezoito processos instaurados por diversos crimes. Defendeu-se alegando que em todos os demais estava inocente e que apenas matara dois homens em legítima defesa.

“A sociedade do delirio” – Eduardo de Noronha, 1921

A Pátria – Guerra Junqueiro

Guerra Junqueiro

Tive castellos, fortalezas pelo mundo…
Não tenho casa, não tenho pão!…
Tive navios… milhões de frotas… Mar profundo,
Onde é que estão?… onde é que estão?!…
Tive uma espada… Ah, como um raio, ardia, ardia
Na minha mão!…
Quem m’a levou? quem m’a trocou, quando eu dormia.
Por um bordão ?!…
E tive um nome… um nome grande… e clamo e clamo.
Que expiação!
A perguntar, a perguntar como me chamo!…
Como me chamo?… Como me chamo ?…
Ai! não me lembro!… perdi o nome na escuridão!…
(…)
E eu desatei a rir, eu desatei a rir,
E três dias cantei com mais três noites a seguir!

Não dormia a rainha de me ouvir cantar…
Oh, loucura minha, desventura minha!
Cantigas são graças para não chorar…
Mandou-me prender, mandou-me enforcar.

Chegaram as tropas e eu, desarmado,
Zás! desbaratei-as com o meu cajado!

E puz-me a cantar! e puz-me a cantar!

Tremendo, a rainha disse então ao rei:
Emquanto o não matem não descançarei.
Com teus cavalleiros vae-m’o tu buscar,
Traz-m’o aqui de rastros para o degolar.

Veio o rei á frente d’um grande estadão,
Zás! desbaratei-o com o meu bordão!
É de temer, é de temer
Um doido varrido com um pau na mão!…

E sempre a cantar! e sempre a cantar!

“A Pátria” – Guerra Junqueiro, 1896

Era uma noite serena, mas triste e melancólica. A lua, a pálida rainha das sombras, só de vez em quando deixava ver a sua face prateada, espreitando pelas fisgas das nuvens que rolavam pelo firmamento além. Por toda a parte reinava um silencio profundo, verdadeiramente sepulcral, entrecortado apenas pelo latir dos cães no povoado e pelo grito agudo da coruja, esvoaçando á roda do campanário, atraida á lambuge do azeite das lâmpadas que bruchuleavam lá dentro em frente dos altares.

Pelas estreitas e sinuosas ruas da Feira caminhavam a essa hora apressados para casa alguns retardatários, abordoados a fortes varapaus e de revolver em punho para se defenderem dalgum mau encontro!

“A autonomia de Espinho e os protestos da villa da Feira” – 1900

 

O “Espreitador” na feira.

José Daniel Rodrigues da Costa, O “Espreitador”, deixa-nos aqui algumas das suas notas sobre a violência em feiras, a faca e varapau, no ano de 1818.

espreitador
É nesta mesma Feira, que hum homem tira a vida a um seu semelhante, porque lhe pisou hum pé com o cavalo em que ia.

É nesta mesma Feira, que fervem os cajados, e as cajadadas, por certos ciúmes, que tiveram três saloios , das suas Marias do Monte : e elas em ais, e suspiros metidas na briga. Ah bom Juiz da Ventena, que hás-de vir a ser senhor do grosso cordão de ouro, que uma delas traz ao pescoço, só por não ver o seu António entre os ferros d’ElRei.

É nesta mesma Feira , que hum grande rancho de tafues se mete em uma taberna, e mandam vir quanta carne de porco o taberneiro tem, saladas, e azeitonas, conservas, e vinhos novos mal cozidos, castanhas, e aguas pés de lavar pipas, e tudo se mete no bucho à força de muitas risadas; de sorte que ficam aquelas alminhas sem pena, nem gloria, despedindo de vez em quando insonsas graças à taberneira, e insulsos ditos picantes com seus atrevimentos vinhaticos. Desconfia o dono da casa: este leva com o copo na cara, daquela gente bem nascida, e mal criada. Impunha-se a faca, crescem os gritos. Um, que não é para ver sangue, porque não só desmaia a qualquer sangria, mas até sai para fora, quando tem matança de porco em casa, puxa da bolsa, e paga o gasto; custa dez mil reis a função Voltam todos para casa amparados uns pelos outros; e no outro dia hum é ungido, e o outro mal sentenciado pelo seu Medico. Que tanto pode toda aquela burundanga! Porém isto nasce de todos terem a morte por vizinha, e ninguém julgar, que mora na sua rua; que se assim não fosse, acautelar-se-ião mais as vidas dos perigos das boas feições.

“O espreitador do mundo novo : obra critica, moral, e divertida” – José Daniel Rodrigues da Costa, 1818

COUSAS D’ALDEIA

Rosa era uma muchacha de 19 anos, de estatura mediana, cara roliça e vermelha, olhos vivos, cabelo castanho, e um sestro namorador tão inveterado que as borboletas campesinas iam abrasar-se às dúzias naquela luz pérfida e oscilante. Quando eu a conheci andavam-lhe na cola dois mocetões bizarros: um filho do Damásio e o Luís da Santa. Como párrafo explicativo devia encabeçar neste ponto a genealogia dos meus heróis ; fabrique-a porém o leitor a seu modo, que me poupa a trabalhos sem detrimento do assunto.

Aconteceu um dia que a Rosa vinha da missa com o filho do Damásio; dizia-se por então que era ele o preferido. A romaria caminhava no mais amorável comprazimento. O céu estava azul, o ar sereno e embalsamado, as aves palreiras como nunca, e as flores namoravam-se de valado
para valado.

É fora de duvida que para aqueles dois corações o mundo exterior era de urna influencia incalculável; e eu sou dos que crêem, corno Victor Cousin, que o mundo exterior é que decide, em regra, do destino dos homens.

La terra, molle, lieta e dilettosa,
Simili a se gli abitator produce.

Imagine-se que ao saírem da azinhaga para a estrada que conduzia ao povoado, os dois deram de chapa com o Luís da Santa. Rosa enfiou, o filho do Damásio apertou com mais força o varapau ferrado ; enquanto que o outro se contentava em sorrir, mas com um riso torcido e amarelo que
era para dar calafrios.

Alguns dos rapazolas que por ali estavam fizeram monte a espera da trabuzana; felizmente as duas nuvens passaram sem descarga de fagulha, nem bateladas de pedrisco. Rosa continuava a caminhar, mas o braço tremia-lhe aconchegado ao braço predilecto. Nem mais urna palavra soltaram ; ao despedirem-se deram as mãos, olharam-se, cada um deles sentiu a vista anuviar-se-lhe de agua, e a voz do amante foi a única a balbuciar:

— Adeus, Rosa; até logo.

Ela pôs os olhos no chão, e foi-se a cismar para casa.

No sitio havia urna adega, cujo nome de guerra provinha do locatário. Chamavam-lhe a adega do Feliciano. Era lá que se congregavam os sarrabais contemporâneos, e que em melo das abluções e dos chistes ressoavam os descantes dos mais afamados improvisadores. A adega simbolizava o
outeiro dos bons tempos freiraticos. Um mote que se atirasse era colhido no ar por urna dezena de vates, a gritaria gemia, as vozes esganiçavam-se, a rima acudia pronta, os curiosos acotovelavam-se, os copos de vinho ferviam, berreiro entusiástico da matula coroava aquela cena, digna de um primoroso Renato.

No domingo em que sucedeu o encontro, a adega do Feliciano extravasava saloiada. Eram oito horas da noite. Uma causa extraordinária movia e impacientava aquela gente; a ansiedade debuxava-se em todos os rostos ; um ruído indecifrável e cavo repercutia-se ao longo do casarão enegrecido.

Mal que a guitarra do Villafranca soltou os primeiros arpejos, o sussurro foi-se desvanecendo a manso e manso, os ecos adormeceram por entre o vigamento, as respirações sofrearam-se, e o silencio da expectativa dominou os mais encabruados tagarelas.

O da guitarra estava a um canto da adega, os saloios em circulo, e no centro, fronteiros um ao outro, apareciam os vultos ameaçadores do Luís da Santa e do filho do Damásio. Era uma luta que se preparava.

Não sei se na historia dos trovadores há facto semelhante: dois amantes que se inspiram de amor e de zelos, e que pelejam arremessando cantigas.

Luís da Santa começou:

-O mar pediu a Deus peixes
Para dar aos pescadores,
Eu peço a Deus que me tire
Saudades dos meus amores.

Saudades sei que não matam,
Mas ralam a vida inteira;
Olha o sol que te não creste,
Rosa que estás na roseira.

A folha mais verde, verde,
Pôde também desbotar,
Quanto mais se a folha verde
Não quiser à sombra estar.

A cana do caniçado
Quebra se alguém lhe põe pé,
Eu também quebro cantando
Certo olhar de quem me vê.

O Luís da Santa calou-se. O auditório estava pendendo daqueles versos, entoados com urna voz sonora e vibrante, versos que a tristeza repassava, apesar da aparência fria do cantador.

A guitarra prosseguia nos seus harpejos. Todos os olhos se cravaram no filho do Damásio, e ele, firmando a mão esquerda sobre o balcão da adega, prorompeu deste modo:

– Eu hei de amar, hei de amar,
Hei de amar bem sei a quem;
Eu hei de amar ao meu gesto,
Nanja ao gosto de ninguém.

Ninguém me põe pé e quebra,
Antes que seja a cantar,
Nem há sol que a minha rosa
Possa as folhas desbotar.

Que te importa a ti que eu siga
Uma paixão que me arrasta?
Cada qual segue seu rumo;
Para mim é quanto basta.

Morde, morde, minha cobra,
No verde pé dessa flor;
Quem seu mau peito descobre
É de si mesmo traidor.

Ás ultimas palavras do filho do Damásio houve um murmúrio de aprovação que ciciou em todos os lábios. Luís da Santa quis retorquir, entoou urna quadra, vacilou no último verso, insistiu, mas a inspiração ia-se-lhe arrefecendo.

Só no fim, apoiando-se a um grosso cajado de marmeleiro, pôde sair-se com estes versos, que eram o derradeiro esforço de uma imaginação agonisante:

O rouxinol quando bebé
Canta logo de prazer,
Sabe Deus naquelas águas
Quantos mais não vão beber !

O insulto era frisante, e a poesia tornava-se ineficaz para rebate-o. Os circumstantes recuaram supondo inevitável conflito, enquanto o Vilafranca rogava a custo os dedos pela guitarra, corno quem tinha pouca vontade de os acompanhar nessa toada.

O filho do Damásio não cedia, contudo, às primeiras. Acima da luta brutal pairava a gloria poética. Queria pagar afronta com afronta. Verdade é que antes de encetar a cantiga deu ao corpo urna postura arrogante, mas o verso manava-lhe fácil e sereno, como se uma trovoada de cacetes não escurecesse já o horizonte. Encarou o Luís da Santa, correu o olhar pelo auditório, sorriu-se com a consciência da superioridade, e levantou a voz com desempache:

Vai-te lá, não me enfarrusques,
Disse a caldeira á certan ;
O rouxinol nunca bebe
No charco onde vive a rã.

Quanto mais a folha brinca,
Mais pode ao chão vir parar ;
Muita gente canta, canta,
Com vontade de chorar.

Ainda não fenecera o ultimo verso, e já o tumulto lavrava na adega e cá fora. Cada lapuz tomava bando pela causa. A lógica inflexível dos varapaus trazia em cada arroxada um silogismo perfeito. A proporção que as costelas se abolavam, que o reboliço crescia, que as pragas redemoinhavam, por outro lado vinha a razão alvorecendo e alumiando, para depois se assentar no seu trono orvalhado de sangue, que é onde a filosofia costuma quasi sempre assenta-la!

No outro dia, de toda aquela baralha desenfreada resurtiu o seguinte : Luís da Santa tinha a cabeça esmechada, Damásio três dentes de menos, o Vilafranca a guitarra partida, e quatro ou cinco labruscos acusavam-se de dores pelo corpo, as quais não eram certamente de reumatismo. Não pára aqui o romance; o melhor capitulo podia ter por epigrafe os dois conhecidos versos de Francisco I. Rosa, volteou corno uma grimpa, o que era sinal de vento novo. Quando o filho do Damásio foi procura-la achou-a tão festival e indiferente que o rapaz ficou banzado de todo.

Desiludido nas suas crenças de amante, de que dera testemunho com dois dentes molares e um canino, o filho do Damásio partiu, e foi-se por a cismar para o alto dos moinhos. Lembrou-lhe o descambar dali a baixo, o deixar-se colher por urna vela, enfim, o fazer milhões de disparates, quando viu passar pela azinhaga o seu rival Luís da Santa.

O coração deu-lhe um salto, mas destes saltos reais, em que se quebram cangas e apeiros. Sentiu-se livre. Desceu do monte a passo cheio, dirigiu-se ao Luís, agarrou-o, aferrolhou-o ao peito, esteve assim um momento, e ao cabo, pondo as duas robustas mãos sobre os ombros do interlocutor, exclamou com a inflexão de quem se salva:

— Ó Luís, olha que nós somos amigos. Aquilo foi o demo que nos tentou… e por ma pega. Bem mo dizias tu ontem :

O rouxinol quando bebe
Canta logo de prazer:
Sabe Deus naquelas aguas
Quantos mais não vão beber.

— Está dito, rapaz, acudiu o Luís com gesto prazenteiro; saudades não comem gente, e o que lá vai, lá vai. Temos de festejar as pazes na adega do Feliciano.

— E que venha toda a malta, e o Vilafranca que traga instrumento novo. Queremos cantar ao desafio.

— Como ontem? perguntou o da Santa, com um risinho melancólico.

— Não, Luís, que as mulheres não valem três dentes da boca.

Nessa noite houve festança na adega. Feliciano andava numa dobadoira. Copo cheio, copo vazio, torneira fechada, torneira aberta; agora do tonel, logo da pipa, mais tarde do odre, tudo se provava, tudo se aplaudia, e tudo se abismava naquele sorvedouro sem fundo As unhas do Vilafranca saltitavam no cordame, e os improvisos ressoavam contínuos. Rosa desprendera-se do amante, como é costume de todas as rosas desprenderem-se do tronco.

Um dia o humilde narrador desta verídica historia encontrou-a enchendo o cântaro na fonte. Tinham passado dois meses do ocorrido.

— Então, flor, temos ao certo amores novos?

— Que se lhe há de fazer? Esta agua que corre não é só para encher a minha bilha!

Quando me disse isto pôs o cântaro à cabeça, e com um donaire adoravel foi-se, cantarolando, ao longo da azinhaga.

“Contos da sesta – Coisas d’aldeia”, Eduardo Augusto Vidal – 1870

Zé Cristo

O clã dos “Cristos” metia respeito: o Manel, na casa dos vinte e oito anos, o João, com menos dois, o Chico, recém vindo da tropa, cujo tempo passara, na maior parte, no forte da Graça, em Elvas, e o ganapo – o Zé – a atingir os dezoito anos, dentro de dias.

Todos iam acima do metro e oitenta.

Não havia festa, ou descante, onde os quatro irmãos não aparecessem, com ar provocador e, por vezes, munidos dos respectivos paus – que punham sobre as omoplatas, formando uma cruz, com os braços –.

Daí derivava, ao que se pensa, a alcunha que ostentavam, vinda já dos seus antepassados e que não ligava ao apelido da família: Alexandre.

Os paus constituíam um verdadeiro adereço; eram vulgaríssimos, na época.

Tratava-se de uma vergôntea de marmeleiro, bem seleccionada e seca longe do sol, com uns dois côvados, ou uma vara – o côvado media 66 cm e a vara 11 decímetros –.

Conhecemos apenas duas utilidades a estes paus, que qualquer homem que se prezasse exibia nas feiras e mercados: para conduzir o gado, ou para se apoiar.

Uma outra utilidade – como padrão – era pouco aplicada.

As zaragatas eram, de facto, o terreno mais vulgar para o uso do pau.

Nas aglomerações e festanças, dos meios rurais, disputava-se o jogo do pau, mas o verdadeiro uso do mesmo era no costado de um qualquer adversário, quando o ensejo tal proporcionasse.

Todavia este e outros costumes foram-se extinguindo, devido à proliferação da GNR e firmeza de Regedores e Cabos de Ordens, nome por que na região eram designados os Juízes de Paz.

Os magotes de rapazes, que andavam de aldeia em aldeia, nos bailes, descantes e festas, deixavam os paus escondidos de forma que pudessem dispor deles, em poucos minutos, se necessário fosse.

Nos torneios de jogo de pau disputavam-se prémios e honrarias, de que qualquer homem se prezava.

Ouvia-se contar, aos mais velhos, que no descante do casamento da mãe do Ti’Chico “Manajeiro”, houve uma zaragata, provocada pelos rapazes de Alcaravela, em que foram partidas mais de vinte cabeças e imobilizados mais de uma dúzia de braços.

Talvez, por isso, “o Manajeiro”, era o maior amigo da ordem e do respeito.

Quase todos os “Cristos” tinham já passado pelas companhas do Ti’Chico; esse ano ia o Zé Cristo, como aprendiz do terceiro ano.

Passaria à condição de camarada no final da safra e, no ano seguinte, teria já todas as condições de “oficial”, nomeadamente soldada por inteiro e direito a prémios.

Os aprendizes recebiam, por norma, duas décimas, no primeiro ano; 3 décimas, no segundo e três quartas, no terceiro ano.

No quarto ano, ou não eram mais chamados para as companhas, ou eram-no, na qualidade de camaradas.

O Zé Cristo era teso, caladão e ligeiramente vesgo – chamavam-lhe “zanaga”-.

Era o mais alto da companha e em largura de ombros, não havia quem se lhe comparasse.

Falava pouco, mas, em contrapartida, comia por três ou quatro.

A trabalhar, uma máquina; os moços, que seguiam no seu encalço, viam-se e desejavam-se para atar os molhos e fazer os rolheiros, atrás dele.

Um dia, um dos moços, o Benvindo, chamou-lhe “caga-molhos”, pois não conseguia manter limpa a área de corte do Zé Cristo.

Tanto bastou para que o Zé pousasse a foice e, pegando pelo atilho das calças elevasse o garoto bem alto, no cimo do longo braço e parecendo mostrar um troféu a toda a companha.

Depois, pô-lo, cuidadosamente, no chão, tornou a pegar na foice e começaram a amontoar-se, atrás dele as gavelas ceifadas.

Sorrateiramente, como era seu hábito, o Ti’Chico, fez sinal ao Manel Carolo, em cujo grupo estava o Zé Cristo, e afastou-se da frente de corte, para que o Lopes e o Duque, camaradas que iam ao lado do rapaz, normalizassem a situação.

Uns minutos depois, fitou o Zé Cristo nos olhos – que nessa altura ficaram mais vesgos e baixos – e apenas disse: é a primeira e a última vez que, nesta companha, alguém falta ao respeito; se voltas a fazer alguma das tuas, racho-te!…

Aqui, somos todos homens, e no que ao respeito diz respeito, até os moços o têm de ter.

Este caso foi edificante.

Muito ao modo como o Ti’Chico costumava actuar; batia pouco, mas, quando o fazia, era inexorável e altamente eficaz.

No resto dos dias da companha não houve mais qualquer altercação. E voltaram todos mais amigos que quando partiram.

No fim da companha, o manajeiro reuniu os chefes de grupo e disse o que pensava fazer com as soldadas.

Tudo esteve de acordo.

O Ti’Chico dividiu a totalidade do dinheiro em 40 partes e atribuiu uma a cada um dos trinta oficiais.

As dez que ficaram – as dos aprendizes –, eram para os cortes, cujas quantias iriam fazer os prémios para compensar o mérito de cada um.

Nessa altura tomou a palavra e chamou o Zé Cristo, entregando-lhe uma maquia igual à dos camaradas, dizendo que mostrou corpo, disciplina e trabalho como os melhores, e que a justiça deve sempre ser praticada.

Ninguém se opôs.

Foi a primeira vez, nas memórias das companhas, que um aprendiz foi promovido em pleno campo de trabalho.

Pela justiça da decisão, o Ti’Chico “Manajeiro”, como sempre ficou conhecido e será lembrado, ainda hoje, é apontado como exemplo de capacidade de liderança e espírito de justiça.

Quanto ao Zé Cristo, aceitou as palavras sábias do “mestre” e não consta que alguma vez mais se tenha envolvido em desavenças.

Publicada por Jose Marques Valente em
http://historiasdegentesimples.blogspot.pt/2013/06/ze-cristo.html

Choupa de aço de mais de palmo.

O marchante, arrancando o pau, desenroscou um canudo de cobre que escondia uma choupa de aço de mais de palmo. Manuel Baptista sacou de um dos coldres uma pistola, e esperou sem lhe erguer o cão; o destemido ébrio floreando o longo pau de lódão fez-lhe uma pontoada ao peito, da qual o salvou o cavalo empinando-se. O cirurgião engatilhou e disparou à cabeça de Joaquim Roxo, que instantaneamente caiu de borco sobre o pescoço da mula.

“O Degredado”– Camilo Castelo Branco ~ 1877

Camilo a pau e fogo.

Uma  noite,  quando  um  dos  padres  recolhia,  enxergou  um  vulto  esbatido  no escuro do  mural  que  formava  o tapume  da  eirada sua casa,  e  lobrigou  por entre a sebe o alvejar de uma saia a fugir. Cresceu sobre o vulto com o pau em programa  de  bordoada, e  ouviu  o  estalido  do  peno  de  pistola.  Susteve  a pancada e perguntou:
— Quem está aí?
— Sou o Belchior Bernabé.
— Que fazes aí?
— Nada, Sr. Padre João.
— Porque te escondeste?
— Não faço mal a ninguém, Sr. Padre João.
— Mas engatilhaste uma arma de fogo! — E acercou-se dele arremetendo.— Que queres tu desta casa, enjeitado? Servem-te as minhas sobrinhas…? — E  atirou-lhe um epíteto que definia a natureza da mãe incógnita.
—Sr. Padre João, olhe que, se me bate, eu, bem me custa, mas… atiro-lhe. Siga o seu caminho e deixe estar quem está quieto e manso. Padre João Ruivo sobraçou o marmeleiro ferrado e murmurou:
—Tomo-te à minha conta, brejeiro!
E passou avante.

“Novellas do Minho – O comendador“ -Camilo Castelo Branco

personagens jogadores de varapau (3º)

No seguimento de um post anterior, ficam aqui mais alguns personagens jogadores de varapau, na literatura portuguesa:

O morgado das Perdizes
– Deixem se de contos – continuou o padre – eles fazem o que querem porque sabem que não há um homem de coragem que se ponha à frente do povo….

-Lá isso é que é verdade.

-Já não há homens para as ocasiões.

O morgado das Perdizes que tinha presunções de valente e gabava se de ter varrido feiras a varapau espinhou se com estas palavras e protestou dizendo: -Então julgam vocês que eu se me der para ai, não vou ao cemitério, eu só, e ponho tudo aquilo em cacos? hein?

“A morgadinha dos Canaviais” Julio Dinis – 1868


O Trinta
Em aparecendo o Trinta com o seu varapau de marmeleiro, os desordeiros, que sabiam a coragem e perícia com que ele o manejava, sossegavam ou fugiam.

“Outros tempos, ou Velharias de Coimbra 1850 a 1880” – Augusto d’Oliveira Cardoso Fonseca 1911


Manuel Gandra
Moço e robusto, airosamente aprumado, com o sangue a reçumar-lhe em cores nas faces, uma alegria vivida nos olhos garços, destro ao jogo do pau e languido á guitarra, impunha-se aos homens pela valentia g as mulheres adoravam-no pedindo-lhe tonadilhas e fados tristes.

“Rei negro : romance barbaro” – Henrique Coelho Neto – 1912


O sr. Gomes
Todos na Aldeia o estimavam, porque todos Ihe deviam favores, e além de o estimarem, respeitavam-no porque ele não era mole de queixos. Um ano, na feira de Castro, numa barraca de bacalhau frito, pegou-se de razoes com um valentão de Almodôvar, e como das palavras passassem aos atos, zurziu o homem e mais uns quatro fulanos que o acompanhavam, pondo-os em tal estado que nenhum pode sair dali pelo seu pé.

Era muito desembaraçado, e com um bom cacete nas unhas era homem para varrer uma feira. Felizmente que os homens como o sr. Gomes, valentes no mais rigoroso significado da palavra, nunca são desordeiros nem provocadores; aceitam as situações que Ihes criam; não voltam a cara ao perigo que os ameaça, e quando precisam afirmar os seus brios e pundonor fazem-no a dentro da justa medida, como que procurando que a legitima defesa não toque as raias da agressão desnecessária.

“Scenas da vida” Brito Camacho, 1900


D. Lopo
Segundo a religiosa praxe da época, aprendera D. Lopo na sua mocidade, a jogar o pau, no que fora sempre insigne, e até temido.

“Viver para sofrer. Estudos do coração.” José Barbosa e Silva – 1855


Joaquim do Adro e Manuel da Portela
Nascidos no mesmo ano, Joaquim, do Adro, e Manuel, da Portela, tinham crescido juntos, ligados sempre por, até então, jamais quebrantada amizade.(…) Mais tarde, no tempo das verduras de rapazes, bem precavido devia andar quem quisesse mal a qualquer delles, pois, quando apenas julgava encontrar um, achava com certeza dois marmeleiros,
que consideravam a solidariedade como ponto de religião, tanto no ataque como na defesa.

“Contos – A sentença da Tia Angélica” Pedro Ivo – 1896