Jogo do Pau – História / History – OS GUARDIÕES DA TRADIÇÃO

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A memória do jogo do pau de Júlio Alves Marinho (2/3)

Mestre José Quéo

Não esquecendo três grandes jogadores: Serafim Tripa de São Martinho de Silvares, Florêncio Tripa e Albano Ramos do Bairro de São Jorge.

Um domingo quando ia para o treino de futebol, no ano de 1954, por volta das 8:00 da manhã, encontrei quatro homens a jogar ao pau, Mestre Quéo e três irmãos António, José e Custódio, conhecidos por “os Moleiros”.

A partir dessa data, continuei até ao ano 1964.
Durante esse tempo passaram mais de 150, e quando a equipa fazia demonstrações encontrava-se com 20 a 30 jogadores.

Podemos salientar outros grandes jogadores: Joaquim Lopes e seu filho Valdemar, António Lopes, João Lopes, e seu filho Mário, Serafim Tripa e sua filha Maria do Carmo, Florêncio Tripa e António Chambeta.

Mestre José Leite (Quéo) (Fafe) Jogo do pau
Mestre José Leite (Quéo) (Fafe)

No mês de Julho de 1966, quando me encontrava em férias em Fafe, convidei o mestre Quéo e a sua esposa para almoçar em casa dos meus pais. Durante esse almoço, falámos dos seus familiares. Ele contou-me com uma grande alegria e emoção que tinha aprendido a jogar com o pai, que o pai tinha aprendido com o avô, e o avô do seu pai que o aprendeu de um senhor que se chamava Marques Mendes dos lados de Freitas, onde havia um grupo e eles faziam partidas. Ainda existe familiares. Foi pena que depois do Mestre José Quéo não houve um filho para continuar, assim terminou como podemos dizer uma existência mais ou menos de 200 anos de jogo do pau entre família.

– Júlio Alves Marinho – ASS CUL PORTUGAISE 25/01/2001

A memória do jogo do pau de Júlio Alves Marinho (1/3)

Então chegamos a uma pessoa única e raríssima, e para meu conhecimento o homem mais grande (1,93m) e mais valente da freguesia de São Bartolomeu do Rego, no dia 21 de Agosto de 1953 por volta das 16:00 e antes de sair a procissão da nossa Senhora da Saúde, seu pai dirigiu-se para comprar uma vara de marmeleiro a um negociante de Borba da montanha. O Comprador disse ao negociante para lhe tirar meio tostão ao preço da vara, replica o vendedor como se o conhecia “parolo”. O filho estava ao lado do pai e disse ao vendedor: “você fale com mais respeito ao mesmo velho, pois se não, vai ser o diabo”. O negociante pegou numa vara e desafiou o rapaz, aí começaram a pancada. O rapaz combateu sozinho contra os homens que quiserem deita-lo ao chão. O barulho durou mais ou menos uma hora. Foi preciso a guarda a cavalo intervir para que o barulho acabasse. Metem-lo-no entre dois cavalos e disseram-lhe para ele parar. O rapaz respondeu-lhes: “paro mas os senhores não me batem pois senão fujo-lhes ao respeito”. A guarda acompanhou o pai e o filho até a saída da romaria e eles foram embora.

No mesmo ano, no dia 8 de Setembro, na Senhora do Viso o dito negociante, de Barba da Montanha voltou para vingar-se, mas ai, ele veio acompanhado dos seus amigos.

O meu pai conversava com o compadre encostado a um penedo a alguns metros, o Joaquim viu varas no ar e cântaros cheios de vinho à cabeça. Ele disse ao meu pai “deixa-me ir ver, que os de Borba querem brincadeira”, deu dois saltos, duas arrebitadelas ao chapéu, e as varas falaram com o mesmo sistema de jogo, entrou com jogo de varre quelhas contra jogo e as pancadas mortais. O pau não se via, só se via pessoas com a cabeça a deitar sangue, homens e mulheres deitados no chão. No fim o Joaquim Gonçalves disse: “Já não há mais?” O combate durou mais ou menos três quartos de hora e assim a festa terminou.

Estas duas cenas passaram-se na minha presença.

– Júlio Alves Marinho – ASS CUL PORTUGAISE 25/01/2001

António de Sousa e José Pereira do Tanque – Alunos de mestre Calado – 1985

Parte do trabalho de investigação técnico e histórico do jogo do pau liderado pelo mestre Nuno Russo, nos anos 80, com objetivo de encontrar os mestres mais antigos do país, levou na pegada dos mestres Calado, pai e filho que ensinaram em várias regiões desde os inícios do século XX, como mestres ambulantes.
Infelizmente pouco se sabe sobre os mestres Calado, com quem aprenderam etc…, mas sabemos que ensinavam por várias zonas do país e que na altura desta investigação, eram tidos com grande respeito por grande parte dos jogadores de pau e conhecidos como os mestres mais antigos, conhecidos, em várias regiões.

Nas imagens, temos José Pereira do Tanque (José Batoque) e António de Sousa, ambos alunos do mestre Calado (Pai) a executar e ensinar o jogo do pau, como aprenderam com este mestre.

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Ao centro: António de Sousa, à direita: José Pereira do Tanque (José Batoque), Ambos alunos do mestre Calado (Pai) executando o jogo de 2 em frente.
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Executando o primeiro exercício ensinado pelo mestre Calado antes de começar o ensino do jogo do pau propriamente dito (Esquadria em mão)

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Nuno Russo e o senhor João Vieira Antunes à porta do cemitério onde no recinto exterior os mestres Calados davam as aulas de jogo do pau.

Vieira do Minho – Terra de origem dos mestres Calado (Pai e filho) “Os pretos”

Fotos tiradas em setembro de 1985 por Henrique Andrade

Francisco Padinha

francisco padinhaFrancisco Padinha era um gigante de bigode fininho, bem cuidado e com uma volta nas pontas. Tinha começado na luta greco-romana e evoluído para o levantamento de pesos. Natural de Olhão, Padinha pesava mais de 115 quilos, mas era capaz de levantar muito mais do que isso acima da cabeça. Desafiado num treino, sem preparação, levantou 128 quilos.

No início de 1914, ficou a saber-se pelos jornais que Padinha, sem rival em Portugal no que dizia respeito à força, tinha encontrado uma nova paixão, o jogo do pau. Há vários meses que treinava com um dos melhores professores do país, Artur dos Santos. E o mestre não lhe poupava elogios — Padinha, dizia, era rápido, elegante e com a souplese de um rapaz de 60 quilos.


“1914: Portugal no ano da Grande Guerra” – Ricardo Marques, 2014.

http://www.forumscp.com/wiki/index.php?title=Francisco_Padinha

José Hermano Saraiva – Justiça de Fafe

JoséHermanoSaraiva

LINK: A Justiça de Fafe aos 24:10

A justiça de Fafe explicada por José Hermano Saraiva – 2002

José Hermano Saraiva, analisa a estátua da Justiça de Fafe, e descreve o que para ele é um erro naquela escultura, que representa um paisano a atacar um homem bem vestido, simbolizando um trabalhador a bater no patrão, e explica que a justiça de Fafe nada tem a ver com isso, mas sim e na minha opinião também, com o facto de naquela região, o policiamento só ter chegado muito tarde, e a justiça de Fafe era na verdade, a justiça particular, que os indivíduos tinham que fazer pelas próprias mãos.

Manuel Fradinho

Para marcar a disponibilização dos arquivos da RTP deixo aqui o programa “Um Dia Com… Manuel Fradinho”

O Dr. Manuel Fradinho como podemos ver, era jogador de pau, e escreveu um artigo sobre a arte intitulado “Reflexões sobre o jogo do pau – Contributo para a sua análise”.

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/um-dia-com-manuel-fradinho
No link acima podemos ver Manuel Fradinho no programa de 1973, a jogar aos 1:30 e em várias ocasiões ao longo do vídeo.

Grande desordem no Cartaxo – 1899

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No Cartaxo, houve anteontem, dia em que se realizou ali a procissão dos Passos, grande desordem, entre os habitantes de Pontevel e a de Vale de Ponta, que armados de grossos varapaus se agrediram valentemente, sendo precisa a rápida intervenção da autoridade.

Houve cabeças partidas, grande balburdia, e fizeram-se várias prisões.

Esperam-se novos motins.

Mercado semanal de Barcelos

Como registo do gradual desaparecimento do varapau nas feiras, fica aqui uma nota já do início do século XX, bem no norte, onde a bengala já em grande parte substituía o varapau.


barcelos
Vendedeira de pão de Brôa
A influencia do meio citadino vai desalojando por muitas aldeias os costumes. A facilidade de comunicações veio a integrar a corrupção no trajo hodierno.
O varapau, a arma com que os enamorados se batiam pela sua bela, tende a desaparecer. Cede, por sua vez, o lugar à bengala tosca, grosseirona.

“Ilustração Portuguesa” nº263, 1911

O Bate Casacas

emA nota elegre dos tribunaes” – Alfredo Pinto, 1892:

Apresenta-se para depor como testemunha um homem de meia idade, alto, reforçado, tipo de lavrador, a quem o meirinho interpelou sob o nome de Bate casacas.

Juiz. — «Diga-me o seu nome. Da alcunha não quero saber.»

Ele. — «Mas quero eu, que a herdei de meu sogro e respeito-o muito.»

Juiz — com verdadeira curiosidade : — «Desejava bem que me explicasse a razão disso.»

Ele. — «E’ bem simples: meu sogro, que gozava no sitio boa fama como honrado e valente, disse-me à hora da morte : Rapaz, conserva a nome de guerra por que todos sempre me conheceram, que te hás de dar bem. — Ganhei-o na festa da Senhora Santana, onde eu, com o meu varapau, corri mais duma dúzia de casacas que contenderam com minha mulher, com aquela santa que já lá está na terra da verdade! Usa, pois, do nome, do cajado que ainda conservo, e… bate casacas sempre que for preciso.

«E aqui está, sr. juiz, porque eu conservo essa alcunha e estou sempre disposto a manter-la e respeitar-la.»

Juiz. — «E conte comigo para fazer justiça ao seu nobre procedimento, com tanto que nunca se exceda.»