José Hermano Saraiva – Justiça de Fafe

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LINK: A Justiça de Fafe aos 24:10

A justiça de Fafe explicada por José Hermano Saraiva – 2002

José Hermano Saraiva, analisa a estátua da Justiça de Fafe, e descreve o que para ele é um erro naquela escultura, que representa um paisano a atacar um homem bem vestido, simbolizando um trabalhador a bater no patrão, e explica que a justiça de Fafe nada tem a ver com isso, mas sim e na minha opinião também, com o facto de naquela região, o policiamento só ter chegado muito tarde, e a justiça de Fafe era na verdade, a justiça particular, que os indivíduos tinham que fazer pelas próprias mãos.

Visconde de Moreira de Rei – Justiça de Fafe

António Augusto Ferreira de Melo e Carvalho, Visconde de Moreira de Rei, nasceu em Fafe no ano de 1838 e faleceu em Lisboa em 1891. Cavaleiro da Ordem de Cristo, Fidalgo da Casa Real e deputado às Cortes, o Visconde de Moreira do Rei era político influente na sua terra e, por natureza do seu carácter, pessoa pouco dada a receber afrontas.

Narra a lenda que, tendo chegado atrasado a uma das sessões, foi veementemente censurado por outro parlamentar com o título nobiliárquico de marquês, tendo este inclusive usado modos grosseiros ao ponto de lhe chamar “cão tinhoso”. Perante semelhante afronta, o Visconde de Moreira de Rei fingiu ignorar e mostrou-se impávido como se nada tivesse ouvido a seu respeito. Porém, após os trabalhos parlamentares, dirigiu-se ao marquês pedindo-lhe explicações ao que este, em lugar de se desculpar, arremessou-lhe as luvas na cara desafiando-o para um duelo.

Conforme as regras estabelecidas, cabia ao ofendido escolher as armas com que se iriam bater em duelo. Ao contrário do que seria de esperar, o visconde não escolheu espadas nem armas de fogo, optando antes pelos varapaus à boa maneira minhota. Exímio no manejo do varapau, arte marcial que o seu opositor não dominava e certamente até a considerava grosseira, aplicou uma valente sova no marquês e, desse modo, desforrando-se do insulto de que fora vítima.

Perante tão hilariante duelo, o povo não se conteve e gritou:

– Viva a Justiça de Fafe!

ver: “Barão de Espalha Brasas” – Inocêncio Carneiro de Sá

É a tradição que assevera
Que corremos tudo a pau
Mas nenhum de nós é fera
E fafense algum é mau.

A “Justiça de Fafe” é, ainda hoje, um símbolo identificador desta Terra, do qual muitos fafenses se orgulham, por cá e pelo mundo. É uma tradição histórica incontornável que o concelho de Fafe quis perpetuar em forma de monumento erigido nas traseiras do Tribunal em 1981. Para “lavar” talvez, um pouco a imagem pejorativa que alguns poderão dar a esta tradição, foi concebido o verso seguinte.

e ainda outra lenda da Justiça de Fafe

D. Fafes Telesluz
No tempo do Conde D. Henrique, havia um cavaleiro chamado D. Fafes Telesluz, que era alferes-mor do Conde. Tinha D. Fafes uma bondosa esposa, muito amiga dos pobres e do povo em geral. A dada altura, o cavaleiro ter-se à apaixonado pela sua aia, uma mulher muito formosa que querendo o amado só para si, envenenou a sua ama, tendo esta falecido. O povo, que adorava a esposa de D. Fafes, apercebendo-se que a causa da sua morte residia no veneno que a aia lhe ministrara, dirigiram-se armados de varapaus para a porta do famoso cavaleiro, exigindo que lhes entregasse a aia, para que pudessem fazer justiça pelas próprias mãos. Não lhe restando outra alternativa, D. Fafes entregou a aia à multidão que a matou à paulada: Aí se terá feito “Justiça de Fafe”.

Outra lenda da Justiça de Fafe

Um jovem rapaz filho de gente humilde, no dia das festas da Senhora de Antime, enquanto assistia à passagem da procissão, viu a sua “trigueira”, bela e amada namorada ser apalpada no “traseiro” por um abastado fidalgo que visitava Fafe, tradicionalmente, pelas festas da Vila. O jovem namorado, embora ficasse muito ofendido, não quis “fazer peito” e pacientemente deixou passar a procissão. No final deste acto religioso, o rapaz dirigiu-se ao fidalgo fazendo-lhe sentir o seu desagrado pelo gesto obsceno feito à sua namorada momentos atrás. O burguês, tirando a sua cartola da cabeça, fá-la passar junto da cara do rapagão que sentindo-se uma vez mais provocado, quis lavar a sua honra, desafiando o ricaço para um duelo. O desafio foi aceite. No momento de escolher as armas, foi pelo próprio povo que assistia à discussão, pedido aos homens desavindos que mantivessem a tradição do jogo do pau. O ofendido aceitou esta escolha popular das armas. Pelos presentes foram então entregues aos rivais dois valentes “lódãos”.

A escaramuça começou. Ouviam-se, de vez em quando, os gemidos de dor dos homens quando sofriam as fortes pancadas, misturadas com o som do bater dos paus. Os populares que assistam a esta renhida luta, batiam palmas. Era o delírio, há muito que não se via uma rixa destas.

O pobre rapaz deu tamanha lição de pancadaria no burguês que, fugindo a “sete pés”, abandonou rapidamente a Praça, ouvindo ainda o grito de todos os populares:

“Viva a justiça de Fafe!” “Com Fafe ninguém fanfe”.

Esta lenda foi reproduzida na “Monografia da Freguesia e Cidade de Fafe”, Junta de Freguesia de Fafe 2008.