Herminius – 1893

HERMINIUS
“Esta «troupe» portuguesa, que vai a Chicago mostrar os nossos costumes e diversões, como toques de guitarra, fandango saloio e jogo de pau, apresenta-se no Coliseu dos Recreios, ás Portas de Santo Antão, no sábado próximo, 5 do corrente.
A rapariga que baila o fandango é de Pataias, de onde é também um dos mestres do jogo de pau, o celebre Joaquim Agostinho. Dizem-nos, porém, que Gonçalves Dias, mestre do jogo do pau pelo sistema de Lisboa, é uma verdadeira maravilha.
É espetáculo que muito deve entusiasmar o publico.”

 

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(…)

Quer larápios refinados,
que tenham ostentação;
homem de muito dinheiro,
que importa seja ladrão.

Fale bem, tenha palavra,
seja muito… eloquente…
embora não diga nada,
tem um culto reverente.

Mas o pior desta lesta,
este é o meu desconsolo,
os pobres roem as cascas,
os maraus papam miolo…

Os pobres vivem famintos,
quasi sem pão, nem camisa,
outros em risos e festas
sua existência desliza.

Só nos resta a pele e o osso
neste jogo malabar,
oh! que artistas tão distintos,
ninguém os pôde igualar!

Mas quando virá um dia
a terminar esta farsa?
Jogador de pau valente
para varrer uma praça?

Quando surgirá um braço
cheio de força e de orgulho,
empunhando com denodo
o mais famoso estadulho?!

(…)

José Cypriano da Costa Goodolphim – 1907

Mercado semanal de Barcelos

Como registo do gradual desaparecimento do varapau nas feiras, fica aqui uma nota já do início do século XX, bem no norte, onde a bengala já em grande parte substituía o varapau.


barcelos
Vendedeira de pão de Brôa
A influencia do meio citadino vai desalojando por muitas aldeias os costumes. A facilidade de comunicações veio a integrar a corrupção no trajo hodierno.
O varapau, a arma com que os enamorados se batiam pela sua bela, tende a desaparecer. Cede, por sua vez, o lugar à bengala tosca, grosseirona.

“Ilustração Portuguesa” nº263, 1911

Uma espécie de jogo do pau

Como curiosidade, antigamente, numa altura em que em Portugal se conhecia melhor a cultura portuguesa do que a estrangeira, explicavam-se as artes marciais orientais, referindo-se às nossas, para o publico ter uma ideia do que se tratava. Hoje em dia é ao contrário, para se explicar o que é o jogo do pau num artigo para o publico em geral, tem sempre que se aludir a artes marciais oriundas do outro lado do mundo para o publico perceber que não se trata de um jogo ou dança. Para explicar o que é nosso, temos que dar a volta ao mundo, quando deveria bastar olhar para o lado.

“Os marinheiros japoneses não respiravam no decurso da lição de gymnastica, muitos apresentavam o lypo abdominal e comprimiam o ventre com um cinto de lona, (relatório do dr. Tissié). São o jiu jitsu e o smó os exercícios mais apreciados por aquele povo oriental, e ensinados aos estudantes, exercito, marinha e policia especialmente o 1.°, sendo também praticado o Kan jitsu, especie de jogo de pau que vem dos tempos antigos.”
Diário Ilustrado – 1910

Era uma noite serena, mas triste e melancólica. A lua, a pálida rainha das sombras, só de vez em quando deixava ver a sua face prateada, espreitando pelas fisgas das nuvens que rolavam pelo firmamento além. Por toda a parte reinava um silencio profundo, verdadeiramente sepulcral, entrecortado apenas pelo latir dos cães no povoado e pelo grito agudo da coruja, esvoaçando á roda do campanário, atraida á lambuge do azeite das lâmpadas que bruchuleavam lá dentro em frente dos altares.

Pelas estreitas e sinuosas ruas da Feira caminhavam a essa hora apressados para casa alguns retardatários, abordoados a fortes varapaus e de revolver em punho para se defenderem dalgum mau encontro!

“A autonomia de Espinho e os protestos da villa da Feira” – 1900